Cara de pastel

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Tive duas semanas de férias. Duas semanas pra tentar desligar um pouco a cabeça das coisas do trabalho e submergir somente naquilo que me dá prazer. Não que meu trabalho não me dê prazer –gosto bastante do que faço e não me imagino encaixado em outra profissão, embora por vezes tenha lá algumas ideias atualmente impraticáveis. Mas o fato é que compromissos, quando demasiados, simplesmente enchem o saco e fazem com que você postergue aquilo que proporciona um gosto um tanto mais colorido para o correr dos dias.

Mas quem disse que é fácil desligar? Quem disse que é fácil se acostumar com a caixa de e-mails vazia ou com a mente preocupada apenas com livros, filmes e seriados que estavam de lado há algum tempo? É complicado. A gente se acostuma com os compromissos e acaba entrando em um círculo vicioso que faz com que você se nutra apenasdas suas engrenagens. Bate até um certo vazio, uma certa saudade de incômodos – que, incrivelmente, quando se aproxima a data de voltar ao trampo, transforma-se em puro ranço.

Somos assim. Quando temos algo, não damos valor. Quando não temos, sentimos falta. Contradições ambulantes que tem a lógica como uma pequena ilha em um mar revolto e imenso, acreditando piamente que sabem aonde se direcionam quando em realidade não trazem a mínima noção sequer do local onde estão. Fosse diferente, poderíamos trazer qualquer alcunha, menos aquela que nomeia nossa espécie como “humana”. Mas isso não significaque não possamos medir a velocidade dos ventos que cruzam pela nossa ilhota ou encontrar razões fora da mitologia religiosa para nos encontrarmos no local que habitamos.

Essa busca, aliás, sempre foi o motor da civilização. O ser humano está no estágio que está em termos de desenvolvimento tecnológico e científico justamente por apostar na sua capacidade de desbravar o desconhecido. Ainda que saibamos, como cantou Raul, que somos humanos, ridículos e limitados e não usamos nem 10% da nossa cabeça animal, a curiosidade e o esforço por encontrar respostas são os maiores responsáveis pela nossa trajetória até aqui. Se em algum momento não houvesse um sujeito que olhasse para as estrelas e se perguntasse sobre sua verdadeira natureza, jamais a sonda New Horizons teria chegado próxima a Plutão, como ocorreu na última semana.

Por isso me assusta ver indivíduos, principalmente jovens, que não trazem consigo o gérmen da curiosidade. Se o camarada sabe usar o WhatsApp, o Instagram e o Facebook, sabe também, por uma linha lógica, que possui, por exemplo, todo um universo de informações ao seu dispor no Google. E o que o carinha faz? Em vez de sair em busca do que não conhece e reconhecer sua burrice quanto aos mais diversos assuntos, chancela qualquer histrionismo político ou fake/genérico que encontra pela rede a partir de uma “curtida” e de um “share”, como se aquela fosse uma verdade suprema e definisse os rumos da sua vida. É triste perceber isso. Claro que não generalizo, pois conheço muita gente muito boa por aí. Mas quando me deparo com certas realidades, as quais denunciam casos de extrema inanição cerebral, começo a colocar em xeque algumas crenças que insisto em ter na humanidade.

Talvez o que nos falta seja o espanto – e digo aqui daquele espanto fundamental, daquele espanto com a realidade, com a vida, daquilo que Aristóteles chamou de “thauma” –, pois sem esse despertar pouco ou nada de bom nos aguardará no futuro. Afinal, é o espanto que gera a curiosidade – e quando consideramos tudo absolutamente normal, esquecendo do mistério incessante que nos rodeia por simplesmente existirmos, nossa letargia mental invariavelmente fará com que nosso caminho seja qualquer coisa, menos digno e ascendente. Pelo contrário, cairemos cada vez mais nesse lamaçal tenebroso que nos encharca de preconceitos, de superstições, de fundamentalismos, de ignorância, de senso de vingança travestido de justiça e tantas outras adjetivações asquerosas que persistem atualmente, ainda que contemos com milênios de história.

Assim como férias do trabalho são necessárias – e em se de tratando de professores, como é o meu caso, primordiais, já que se não fosse desse jeito nós enlouqueceríamos e/ou cairíamos estatelados no chão com um ataque cardíaco –, às vezes precisamos tirar férias das nossas certezas, do nosso senso comum, daquilo que definimos como cabal para dar significado a tudo que nos cerca. Necessitamos de férias das nossas certezas e do nosso cotidiano para que possamos abrir espaço para a curiosidade, para a busca, para o espanto, para coisas muitíssimo mais importantes que essa correria diária na qual normalmente estamos enredados. Ao menos desse tipo de férias, quando voltarmos, tenho certeza de que não estaremos rançosos e com cara de pastel.