“Choque e pavor”

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“Choque e pavor” (“Shock and awe”) é uma doutrina militar baseada no uso de força avassaladora e mostras espetaculares de poder para paralisar a compreensão do adversário e destruir sua vontade de lutar, escrita por Harlan K. Ullman e James P. Wade em 1996. Em 2008, Naomi Klein propôs a existência da “Doutrina do Choque”, a qual consiste em se valer de grandes tragédias (terremotos, guerras, golpes de Estado, hiperinflação, desemprego ascendente, escândalos políticos, etc.) para a desarticulação do “normal político”, com a finalidade de impor rapidamente um “receituário radical” como única rota de salvação – colocando em curso uma agenda neoliberal.

Veja só: a PEC 241/2016 foi apresentada em 15.06.2016 (há 4 meses), teve tramitação relâmpago em uma “comissão especial” e foi votada, em primeira sessão, de forma atropelada pela Câmara dos Deputados – com direito a manobra do Presidente da República a partir da exoneração de ministros (que votariam a favor da mesma) e promessa de cargos em empresas estatais para quem seguisse a orientação do Poder Executivo. Além disso, o PSC, em conjunto com a empresa de consultoria financeira Empiricus Research, lançou uma campanha com o seguinte slogan: “se você é contra a PEC dos gastos públicos, é contra o Brasil” – lembrando, por aproximação, o ufanismo da Ditadura Civil-Militar Brasileira com o infame “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

Antes da primeira votação plenária da PEC, porém, já fomos apresentados a uma modificação estrutural do Ensino Médio via medida provisória (com a intenção de “salvar a educação nacional”), a uma proposta de alteração drástica das regras para a aposentaria (com a intenção de “salvar a Previdência Social”) e a anseios políticos pela flexibilização de direitos trabalhistas (com a intenção de “salvar a economia nacional”) – tudo sem muita discussão, sem muito debate, sem muita análise e tendo por base um discurso alarmista (“pavor”) para promover alterações profundas de uma hora para outra (“choque”).

Não se cogitou falar em reforma tributária (para corrigir a injustiça fiscal brasileira, que, pela tributação em cascata, afeta sobretudo as classes média e baixa), não se cogitou tratar de uma auditoria da dívida pública (para se averiguar para onde vai quase 40% do orçamento anual da União) e não se cogitou falar da magnitude da sonegação fiscal no Brasil (a qual custa em torno de 500 bilhões de reais ao ano para o país).

Nada disso: o Governo Temer se movimenta, em um cenário de turbulência política (vide impeachment + Lava Jato), binarismo ideológico (vide o senso comum “PT” versus “anti-PT”) e crise econômica (vide desemprego + inflação), a partir do “choque e pavor”, buscando a implantação (ilegítima) do programa neoliberal da “Ponte para o futuro” (PMDB + FIESP) em pouquíssimo tempo e sem qualquer possibilidade de diálogo profundo.

Qual será o lombo afetado por essa política (posta em curso em New Orleans, após o Furacão Katrina, e no Chile, após o golpe perpetrado pelo General Pinochet, por exemplo)?

Acho que você sabe.