Cinco dias de março

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15.03.2016
Não há problemas no cara que é de esquerda e não há problemas no cara que é de direita. Os problemas começam quando inicia a cegueira e a surdez tanto de um lado quanto de outro, pois ambos possuem pontos interessantes e deploráveis. No quesito político, podemos ser tudo, menos ser crentes. O voto de desconfiança é o único possível se quisermos de fato conversar. Quando isso acaba, tudo cai por terra e o que temos são apenas vozes fundamentalistas que nunca reconhecerão seus erros e acertos.

16.03.2016
O Governo acaba de entregar um arsenal nuclear aos oposicionistas com a nomeação de Lula ao Ministério da Casa Civil. Erro político que conta também com repercussões jurídicas claras, o que demonstra uma grande fragilidade e um imenso desespero governista. A única certeza é que os ânimos apenas irão se acirrar mais ainda a partir de hoje: ninguém do lado A ouvirá alguém do lado B e vice-versa. Consequência imediata? Fundamentalismo tanto do lado A quanto do lado B. Tempos difíceis: o embate rouba o tapete do debate e conversar se torna algo complicado.

17.03.2016
Política não tem a ver com luta do bem contra o mal. O nome disso é Cruzada. Política tem a ver com luta pelo poder, seja qual for a ideologia que sustente esse poder. Para pôr limites ao avanço desmedido do poder é que existe o direito, ao qual todos os lados, sem qualquer concessão, devem se submeter e respeitar. A partir dessa regra mínima é que a democracia funciona, pois dela depende sua manutenção e seu futuro. Pensar o contrário é fanatismo – e tudo o que não precisamos é de fanatismo e radicalismo. O diálogo ou ao menos a tolerância, são os únicos rumos possíveis. Sejamos racionais. O ódio não é parâmetro para nada – e quando tudo isso acabar, nossas vidas ainda serão as mesmas.

18.03.2016
A crise em curso não é só política e econômica, mas institucional e social. Institucional, porque os três poderes vêm gradativamente esticando os limites do Estado de Direito em prol de bandeiras ideológicas, o que se comprova por um Judiciário que se torna ator político e por um Executivo que toma medidas de autoproteção que se chocam com sua legitimidade governista. Social, porque o mito do brasileiro cordial e aberto à diferença em suas múltiplas faces é cotidianamente destruído por vozes raivosas que insistimos em classificar no quadro "coxinha" ou na moldura "pão com mortadela", apostando em um pensamento binário que não nos levará a lugar algum. No plano institucional, se a fronteira do Estado de Direito é esticada em demasia, pode arrebentar. No plano social, se o tecido da convivência se rasga, o resultado é a violência. Falta a consciência de que situações complexas exigem respostas complexas – e não esse digladiar maniqueísta que estamos assistindo.

19.03.2016
Uns falam mal dos “coxinhas”. Outros, dos “Mortadelas”.
E a pobre Constituição? Lembram do Moro e não dela.
Uns xingam os Comunistas, dizendo “é a Besta!” e tal.
Outros bradam que o Demo encarnou foi no Capital.
É treta atrás de treta e F5 pra atualizar.
Conversa que é bom, não tem: o povo só quer brigar.
Minha gente, vamos com calma: política não é futebol;
se corrupto não é mosquito, Lava Jato não é aerossol;
bem devagar nas pedras; cuidemos desse Brasil,
senão a História nos manda pra Portugal de navio.