Clientelismo, populismo penal e “humanos direitos”

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Clientelismo

Neguinho brada contra a corrupção na política. Fala em “petralhas” e diabo a quatro. Indigna-se com o resultado da operação da Polícia Federal relativa a crimes ambientais efetuada no Rio Grande do Sul. Grita: “cadeia! cadeia!”. Ao mesmo tempo, porém, não perde uma chance de burlar o sistema para buscar um favorecimento, uma regalia – tornar-se, em suma, um “cliente político”.

A parada começa na escola, com a clássica “cola”. Dependendo do contexto, reflete-se na universidade e na vida profissional. Tudo bem que a saúde dos nossos umbigos seja o que mais nos interessa. É normal. Mas se o olhar está apenas aí, Renan’s, Maluf’s, Feliciano’s, Garotinho’s, Dirceu’s, Cachoeira’s & Cia, devem ganhar aplausos.

Na boa, já cansei de falar isso: o macro é reflexo do micro, a baderna coletiva começa na baderna individual. Mas quando você percebe que dadas pessoas não tremem em abraçar artifícios ilícitos para ganhar uma estrelinha, a revolta com esse troço todo me causa refluxo gástrico.

O pior é que até existem sujeitos com vontade de mudar, de destrinchar o chiqueiro. Mas esses sujeitos são “amigos” de outros sujeitos que se aproveitam do chiqueiro. Daí rola aquele lance de “honra”, “paz”, “ímpeto de não se comprometer” e coisas assim. Mas diz aí: não é no mínimo falta de coesão?

Ainda na metáfora do chiqueiro, quem sabe o sistema tenha se tornado o próprio chiqueiro. Sei dessa possibilidade. Mas prefiro acreditar que dá tempo de reverter a situação. Se não crer nisso – e veja bem: trata-se de uma crença, uma ausência de evidências –, o que pensar do amanhã?

Melhor parar com esse palavrório. Vai que o refluxo vire gastrite.

Tenso, tenso.

 

Populismo penal

Movimentos em prol da redução da maioridade penal têm sido a tônica de várias manifestações públicas de 2013, impulsionados por crimes cometidos por menores de idade que causam ódio e repulsa na população em geral.

Em uma caminhada ocorrida em São Paulo no dia 27 de abril, haviam sujeitos portanto faixas com a seguinte provocação: “se o crime não tem idade, por que a punição teria?”.

Pergunta-se: será que esses cidadãos não enxergam o teor nitidamente fundamentalista dessa colocação e sequer observam suas possíveis consequências sociais absolutamente fascistas?

É preocupante essa safra que o populismo penal tem colhido no Brasil.

 

“Humanos direitos”

Ouço muitas vozes dizendo que as forças policiais são injustiçadas pelos meios de comunicação. Nos últimos dias, esse tema encontrou forte apelo em razão de determinada reportagem veiculada domingo passado pelo Fantástico, a qual relatou uma ação policial aparentemente imprudente realizada na Favela da Coreia, no Rio de Janeiro, resultando na execução do traficante carioca conhecido como “Matemático”.

Na tentativa de referir que redes de televisão deturpam a imagem da polícia, alguns alegam que tal traficante merecia a morte, sendo que investigações por parte do Ministério Público e de organizações de direitos humanos com relação ao caso seriam totalmente descabidas. Existem outros que chegam ao cúmulo sórdido de falar que “os direitos humanos são o câncer do Brasil”, elogiando, por outro lado, a ação da polícia americana que capturou os responsáveis pelo atentado na Maratona de Boston.

Acerca do tema, algumas breves considerações: 1) o foco da matéria comentada foi a possível imprudência da ação policial, não a instituição da polícia em si; 2) essa possível imprudência encontra eco nos excessos policiais que todos os dias ocorrem pelo país; 3) quem fala que “os direitos humanos são o câncer do Brasil”, não tem a menor ideia sobre o significado dos direitos humanos; 4) negar a violência por meio da afirmação da violência como tentativa de se estabelecer a paz, é nutrir uma situação de conflito intermitente; 5) render homenagens às forças de segurança dos EUA é esquecer dos limbos jurídico/existenciais promovidos por aquele país em Guantánamo, no Afeganistão e no Iraque, por exemplo.

Diante de toda essa situação, a conclusão é a seguinte: temos de tomar muito cuidado com interpretações equivocadas de fatos sociais que contêm informações aparentemente corriqueiras. Do contrário, tendências totalitaristas e anti-republicanas já palpáveis no mundo atual podem tomar corpo e assumir as rédeas do sistema jurídico-político construído ao longo dos três últimos séculos.

Resumindo, os “humanos direitos” e toda a sua matriz ideológica excludente e classista, são um perigo real e imediato.