Confissões de um auxiliar de cozinha

0
115

A cozinha é um ambiente hostil. Ao menos é o que penso. Óleo que ferve, água que borbulha, fumaça que sobe. Francamente, acho que não é pra mim. Mas de uns tempos pra cá, tenho ensaiado alguns quitutes que não estejam estritamente relacionados com o microondas. Claro que não sou o protagonista desses pratos, já que isso seria pedir demais. Pelo contrário, figuro como uma espécie de auxiliar de cozinha da minha namorada – papel que, dada minha absurda ignorância gastronômica, condiz com uma evolução tremenda que me ocorreu de um tempo pra cá. Gosto, por exemplo, de picar cebola e alho. Fica aquele ranço gostoso nas mãos que aparentemente, ao menos na imaginação débil que trago, tatua nos dedos uma espécie de ar de trabalhador das panelas, o qual me dá certo orgulho.

Esses dias, porém, dei uma mancada feia que traduz minha falta de habilidade com o fogão e sua família. Inventei de fazer ovos mexidos e exagerei no azeite. Ficaram aquelas coisas meio amarelas e meio brancas flutuando em uma piscina de absoluta gordura. Mesmo assim, comi. Complicado foi o mal estar que me deu depois. Acho que meu corpo não estava acostumado a ingerir uma coisa tão pesada. Sabe aquela sensação de trazer na barriga uma pedra que afoga mesmo o inflar dos seus pulmões? Exatamente disso que falo – sem contar o gosto amargo e pastoso na garganta, passível de sumiço somente com dois litros de Coca. Quem manda o cara se meter no que não entende e ainda assim, coberto de pura teimosia, engolir a gororoba que nasceu da sua completa falta de tato. É pedir pra tomar laço.

O estranho é que quando eu era criança, pensava que um dia iria cozinhar de forma divina. Não que meu tempo esteja acabando, não que a velhice esteja batendo com sua carranca de rugas às portas do meu calendário biológico. Nada disso. Trata-se de uma figura de linguagem, sendo que olhando pra trás e tentando recortar nacos e fatias da minha história, vejo que, apesar de contar com vinte e oito anos, por vezes sinto que tenho mais de oitenta. Talvez seja besteira, bobagem de quem vive entre ironias, melancolias e risos. Mas é exatamente esse sentimento que me assola quando paro pra pensar sobre as calçadas nas quais pisei, os corpos que toquei e as palavras que da minha boca saíram muitas vezes desprovidas de qualquer racionalidade. Por mais que tente legar algum senso de perfeição às coisas que gosto – e a principal delas é a expressão, a comunicação, tanto escrita quanto falada –, mancadas são fundamentais, tropeços são rotina, dada minha completa impossibilidade de relacionar totalmente minhas aspirações com suas respectivas e possíveis materializações.

Mas talvez todos sejam assim. Mesmo que seu vizinho exale felicidade e bem-estar, algo de errado sempre existe no contorno das suas sobrancelhas, por mais que você tenha a certeza de que a vida dele seja muito melhor que a sua. É corriqueiro. As pessoas ficam tão preocupadas em olhar para a existência dos outros, para suas venturas e desventuras, tão amealhadas em criticar tudo quanto conquistam ou simplesmente sentem, que esquecem de perceber que é justamente na fugacidade do pequeno, do ínfimo, de um carinho antes de dormir, que certamente reside algum naco de sentido dessa coisa tão escandalosa que é viver. Não que grandes acontecimentos não sejam bacanas. São fundamentais, óbvio. Mas a vida de poucos é permeada por holofotes a todo momento, de maneira que se quisermos construir alguma serenidade, alguma calma para enfrentar resfriados ranhentos, cheques especiais estourados e rusgas diárias com colegas de trabalho, temos de alicerçar nosso sentir e pensar exatamente no pequeno, em um paladar que não necessita de muito sal e muito açúcar para perceber as sutilezas do tempero.

Problema é que vivemos em um tempo de exageros. Tudo tem que ser grande, roliço, obeso, rococó. Menininha conhece menininho numa terça e na quinta já sai falando que o lindinho é o amor da vida dela, dispondo expoentes em números plenos de falta de exatidão. Tapamos nossa incapacidade para o refinado com uma tendência espalhafatosa para o barulhento. É um desastre. Em matéria de sensibilidade, a maioria dos adultos se comporta como um adolescente mergulhado na panela de pressão dos seus hormônios. Se o filme de ação não tiver metralhadoras e ratatás de minuto em minuto, é chocho. Se o DVD romântico não for meloso pra mais de metro, afeito a uma idealização apaixonada como aquelas dos livrinhos classe Z que vendem em bancas de jornal, não vale. Quem sabe tenhamos a necessidade do “muito” pela simples razão de que não conseguimos nos educar para o “pouco”. Essa educação, reconheço, dá trabalho, não ocorre do dia pra noite. Mas há algo de esplêndido em você reconhecer que o simples ato de deslizar os dedos pelo teclado do notebook pode resultar em uma epifania grandiosa se todo o sistema que o possibilita for minimamente compreendido.

Por isso é que, coisa de meia hora atrás, fiquei observando as cores que surgiam em uma panela que cozinhava um strogonoff de frango. Do vermelho ao amarelo, passando por alguns tons completamente desconhecidos ao meu senso pictórico de macho, o cenário era bonito e ao mesmo tempo amedrontador. Não que grandes ideias tenham me surgido, não que algum genial insight tenha me brotado. Mas há algo de mágico em pegar alimentos crus, misturar água, óleo, azeite e sal, levar ao fogo e perceber que depois de alguns pedaços de hora aquilo tudo se transforma em algo que satisfaz tanto os seus olhos quanto a sua boca. Talvez aí esteja um motivo para eu deixar de frescura e me dedicar ao mundo gastronômico. Pensando bem, essa coisa de dizer que a cozinha é um ambiente hostil certamente não passa de completa exasperação de preguiça. Ou, como diria uma amiga psicóloga, um “estado de negação”. Mas prometo: meu primeiro livro de receitas virá à tona apenas quando meus pés completarem noventa anos. Se ele não chegar, paciência. Certamente sua inexistência será um bem para a humanidade.