Da semana

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1.
Dá pra ser contra o Governo, contra a realização das Olimpíadas no Brasil e até mesmo problematizar o modo como a “identidade nacional” foi retratada na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, mas de forma alguma se pode negar a qualidade e a beleza da cerimônia.

2.
É tanta gente falando que vai “fazer campanha de graça” para fulano ou cicrano, que fico me perguntando: antes “faziam campanha paga” ou simplesmente não faziam campanha alguma? Quando a obviedade ética vira bandeira, podemos concluir que estamos em maus lençóis – até porque, por exemplo, mesmo o corrupto é contra a corrupção quando essa prática o afeta (e aquele que é contra os direitos humanos, também pede por direitos humanos quando sofre uma injustiça). Ou seja: ser contra a corrupção e defender os direitos humanos, são pautas tão óbvias que nem precisariam ser levantadas – assim como “fazer campanha de graça” é um imperativo moral básico se você não trabalha com marketing político. Como diz Heidegger, o óbvio, em geral, é dificilmente percebido.

3.
Aposentadoria com idade mínima de 70 anos. Piso de benefícios previdenciários desvinculado do salário mínimo. Pós-graduações pagas em universidades federais. Possibilidade de “negociação” de hora-extra, adicional noturno e até férias. Redução do investimento em saúde e educação pelos próximos 20 anos. Muito boas algumas das propostas do Governo Interino que apareceram nas últimas semanas, não é mesmo? Comemore com patinhos amarelos.

4.
O ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP-PR), afirmou na última quinta-feira que os homens procuram menos o atendimento de saúde porque “trabalham mais do que as mulheres e são os provedores” das casas brasileiras. Há alguns dias, Ricardo havia soltado outra pérola: segundo ele, os brasileiros buscam muito o SUS porque costumam “imaginar que estão doentes”. Como tais falas são auto-evidentes em sua patente absurdidade, contrariando inclusive dados do IBGE, nem são necessários comentários pormenorizados. A cada dia que passa, porém, algo fica claro: a “equipe” e as “propostas” do Governo Interino não medem esforços para surpreender negativamente – e enquanto isso, ecoa pelo Brasil um delicioso “quac/quac” fantasiado pelo alegre silêncio das panelas.

5.
Explicando: a) em alguns casos, gritar “fora Temer!” não é o mesmo que gritar “volta Dilma!”; b) em outros, gritar “fora todos!” não é o mesmo que gritar “Bolsonaro 2018!”. Na minha situação, por exemplo, sinto-me tranquilo em falar “fora Temer!” e “fora todos!” sem que isso signifique “volta Dilma!” e muito menos “Bolsonaro 2018!”. Portanto, antes de cair em memes que generalizam e emburrecem, trancafiando opiniões em caixinhas binárias, convém algum exercício interpretativo que não seja tão raso quanto o Jornal Nacional.
Nossos crânios, além de servirem de casa para o couro cabeludo, também comportam cérebros: acreditem.