Democracia e incapacidade

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Democracia e incapacidade

Democracia
Não vejo nada de mais na articulação de um movimento que pede o impeachment de um presidente. Isso ocorreu no passado – vide o que aconteceu no segundo mandato de FHC, por exemplo – e continua ocorrendo hoje. Também não vejo nada de mais na ocupação do espaço público por movimentos que tragam bandeiras de protesto. Deveríamos ficar preocupados se isso não acontecesse. Confrontos com policiais, igualmente, são coisas absolutamente normais, caso haja algum impedimento ao direito de ir e vir ou nesgas de resistência às intenções do Estado, independentemente da existência de justiça ou não. Quanto às investigações com relação aos despautérios envolvendo agentes governamentais, seria no mínimo curioso se elas não ocorressem e o Poder Judiciário permanecesse inerte. Parece, enfim, que ainda não entendemos que a democracia só é democracia se fervilhar opostos. Muitos países plenamente mais desenvolvidos que o Brasil passam por isso ano após ano sem qualquer estranhamento, já que é assim, afinal das contas, que tudo funciona. Por isso é que, antes de falar em “golpismo”, “cheiro de 1964” ou “sanha totalitarista”, é necessário perceber que ondas de descontentamento diante de determinadas atitudes governamentais são absolutamente corriqueiras, quer estejam certas em suas defesas ou não. O que é anormal, entretanto, é a falta de respeito. Se eu tenho a liberdade para gritar A, você tem a liberdade para gritar B, desde que nossas liberdades em digladiar não firam os princípios do Estado de Direito. Ou seja: é dessa forma que tudo acontece em se tratando de uma república democrática.

Portanto, menos, minha gente, bem menos.

Incapacidade
É no mínimo engraçada a incapacidade que temos de enxergar o mundo para além das dicotomias, dos binarismos. No mais das vezes, por exemplo, dividimos as pessoas em dois grupos: mocinhos e bandidos. Parece que encaramos a vida como um filme de ação, daquele tipo no qual você consegue identificar claramente quem é o vilão e quem é o salvador da pátria – como nos clássicos do 007. Mas por que não admitimos a inexistência de um lado totalmente limpo e de um lado totalmente sujo? Por que não reconhecemos que todo o limpo também é sujo e todo o sujo igualmente é limpo? É desse mal que sofremos diante da tentativa de compreensão do cenário político nacional atual. Ainda que saibamos da sujeira do PP, do PSDB e do PMDB, continuamos insistindo que a mancha apenas se encontra no PT. Qual o motivo? Elegemos um inimigo que personifica nossos descontentamentos, na esteira da lógica do mocinho e bandido. Acontece que com o discurso governamental ocorre o mesmo: diante da incapacidade de reconhecer os próprios erros, coloca-se a responsabilidade na “crise internacional”. É normal? Óbvio que é, já que ninguém gosta de admitir pisadas na bola. Mas quando essas mancadas são disfarçadas, maquiadas e travestidas para esconder uma pífia realidade, o troço começa a feder. Da baixeza da minha ignorância, creio que não é apenas a política nacional que precisa de um choque, de um “te liga, magrão”, pois nós, cegos por dicotomias, necessitamos exatamente da mesma coisa. Abrir os olhos não significa tomar partido: significa compreender a realidade, independentemente de bandeiras, ideologias ou interesses, sendo que é dessa abertura que carecemos quando vivemos enclausurados no binarismo. Pensar sempre será “estar fora da casinha”, além do bem e do mal, além do preto e do branco. Esse é o primeiro passo, porque simplesmente apontar o dedo e berrar impropérios, buscando desculpas para o fracasso a partir da eleição de inimigos, é fácil, fácil demais.

Portanto, mais calma e menos grito, por favor.