Desânimo

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Ando meio quieto há alguns dias, sem vontade de comentar nada. Cogitei que se tratasse de um sintoma do final do ano. Mas, analisando a questão, cheguei à conclusão de que isso seria impossível. Afinal, quem ficaria triste com a proximidade das férias? Pensando um pouco mais, criei a hipótese de que seria culpa do Grêmio na final da Copa do Brasil. De tanto que meu time morreu na praia nos últimos anos, minha quietude poderia ser uma reação inconsciente à expectativa da derrota. Mas também concluí que era bobagem. Então qual seria o motivo para um cara como eu estar desse jeito estranho? Depois de algumas horas, descobri: desânimo. 
Não se trata de um desânimo profissional ou pessoal. Não se trata de um desânimo potencializado por alguma experiência desgostosa ou pela atitude de alguém que conheço. Trata-se de um desânimo fruto de tudo aquilo que leio e assisto diariamente nos noticiários. Como não ficar desanimado e até consternado quando um pai mata o filho em uma discussão motivada por discordâncias político-ideológicas? Como não ficar desanimado quando um grupo de extrema-direita invade a Câmara Federal para pedir um golpe militar no Brasil? Como não ficar desanimado quando o presidente eleito dos EUA diz de forma clara e sem titubear que o aquecimento global não passa de uma farsa? Ao menos para mim, são motivos suficientes para cair no desgosto quanto ao mundo que me rodeia.
Não que eu seja um sujeito otimista que se encontre acossado por uma leve decaída de humor. Nesse quesito, estou com Ariano Suassuna: sou um realista esperançoso. Isto é: sei dos problemas que enfrentamos e tenho consciência da sua dimensão e profundidade, mas, lá no fundo, vejo essa situação como uma espécie de “passagem para um estágio melhor” – seja lá o que isso queira dizer. Acredito que, se a nossa espécie tem a capacidade de realizar transplantes cardíacos e enviar sondas espaciais aos confins do Sistema Solar, certamente traz potencial para melhorar dia após dia. Se em 1960 a expectativa de vida no Brasil era de 53 anos, em 2015 passou para 75, por exemplo – o que é um avanço imenso. Mas às vezes, acompanhando as notícias como acompanho e observando, ainda que de longe, as reações das pessoas, fica bem difícil ser algo mais que apenas “realista” – com um largo pé no pessimismo. 
O grande problema de uma concepção de vida do gênero, é que os ímpetos de mudança simplesmente travam. Quando você é realista ao extremo, enxergando a vida crua e não carregando a esperança de que tudo possa vir a se transformar, você para no tempo. Em vez de apostar suas fichas no amanhã, contenta-se com o hoje de um modo que causa atrofias, limitando-se a contemplar a realidade como quem vê um trem passar ao longe. Se você sabe que não pode interferir no rumo, na velocidade e no modelo do trem, por qual razão perder seu tempo com isso? Deixe estar, ora bolas. Se você percebe que a burrice no nosso país é uma questão estrutural, como refere Eliane Brum, qual o sentido em se importar com as pessoas que não se importam com absolutamente nada que exista fora das cercas do seu umbigo? Não é problema seu, rapaz – e o que você deve fazer é se dar bem nesse contexto, doa em quem doer.
Acho incrível que alguns conseguem se sentir em paz com uma visão do gênero, respingada por tamanho conformismo. Tanto faz se o “antipetismo” virou “antiprogressismo” e o binarismo político está inoculando o gérmen do fascismo em tantos indivíduos. Tanto faz se existem cidadãos que pensam que a Câmara Federal mais conservadora e direitista em décadas pretende “instituir o comunismo” no Brasil. Tanto faz se o mais poderoso líder mundial profere discursos negacionistas em relação a toneladas de evidências científicas que dão conta da predatória ação humana no planeta. Tanto faz: o que importa, ao fim e ao cabo, é olhar para o lado e seguir com a vida da mesma forma e com os mesmos problemas – nada mudará. Sinceramente, invejo um pouco quem consegue agir desse modo. 
Mas comigo não funciona. Resultado? A quietude. Aquela sensação de ausência de palavras, de incapacidade de descrever o real e imersão em um desânimo desesperançoso. Heideggerianamente falando, talvez essa posição possa ser tida como “angústia”: uma “suspensão no nada”, no vazio de significantes e significados, que emerge como uma “aproximação com a autenticidade”. Ou seja: nessa condição, caracterizada por uma espécie de “vácuo discursivo”, o ser humano estaria vivenciando uma etapa de aproximação em relação àquilo que é de fato “autêntico” – aproximação esta que o fará mais consciente de si quanto ao seu caráter histórico e finito. 
Mas será isso? Meu “lado filosófico” diz que sim, meu “lado Eduardo” diz que não e prefiro confiar nele. Esse desânimo é tão-somente o reflexo de um tempo tumultuado e incerto, de um tempo lusco-fusco, entre o amanhecer e o anoitecer, que presencia, atônito, o cair das máscaras e o derreter dos planejamentos. Tempo de inutilidades e retrocessos, de salvadores e hipócritas, de reacionarismo e medo: tempo que, insciente das suas potencialidades, teme seus próprios avanços, desejando um retorno à lua em vez de um chamado ao sol. Em um tempo desse naipe, quem sabe seja normal essa mudez de quando em quando e essa desesperança sazonal. 
Dias melhores virão? Não sei. Mas quero que venham.