Dez apontamentos sobre as manifestações de junho de 2013

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1) As manifestações que o Brasil presenciou na última semana não consistem em uma novidade. Quem pensa contrariamente, certamente não acompanhou as inúmeras marchas que há anos varrem o país e o mundo – considerando-se ainda que a pauta de reivindicações brasileiras é nitidamente inspirada nos indignados europeus, turcos e americanos. Seu caráter diferencial, entretanto, encontra-se na proporção. Ao menos desde o movimento dos “Caras-Pintadas”, que resultou no impeachment de Fernando Collor de Mello, não se via algo semelhante em termos de apoio e adesão popular.

2) Democracia sem tensão não é democracia. O espaço público apenas se mostra efetivamente público quando fervilha conflito de interesses e necessidades, visto que a democracia é um regime político que institucionaliza a legitimidade do confronto para que possa subsistir. Nossa estupefação com os protestos surge da renitente apatia que costumeiramente consiste na tatuagem fundamental que o brasileiro traz consigo. O que se observa, portanto, é que dependendo dos desdobramentos que as manifestações terão a longo prazo, o que presenciamos no país é um momento histórico justamente por conta da simpatia da população pela movimentação reivindicatória.

3) É no mínimo engraçado presenciar o embaraço de comentaristas e jornalistas da grande imprensa tradicional ao tentar compreender a lógica das manifestações. A razão é clara: simplesmente não estamos acostumados com eventos do tipo. Por conta desse fator é que termos como “vandalismo” estão no centro das discussões cotidianas. Mais que isso, é por esse motivo que os protestos são atribuídos aos jovens – quando em realidade abrangem cidadãos de todas as faixas etárias e de várias classes sociais.

4) Não existe luta social totalmente apartidária. As intenções podem trazer essa característica, mas a luta em si sempre tenderá para um ou outro posicionamento político-partidário – e não há problema algum nisso. Mas as coisas complicam quando no meio dessa digladiação de argumentos, surgem ecos irresponsáveis que pedem, por exemplo, o impeachment de Dilma Roussef. Querem o quê: que saia a Dilma e entre o Michel Temer? Ou pior: que o Renan Calheiros ocupe o cargo máximo do executivo nacional? Falta para alguns indivíduos o entendimento de que não adianta mudarem os atores se o cenário permanece idêntico.

5) O comportamento da Polícia Militar na grande parte das manifestações deixou claro o anacronismo dessa instituição em um Estado Democrático de Direito. A militarização da segurança pública é um ponto que precisa ser urgentemente revisto no Brasil. Trata-se de algo que não carrega nenhuma justificativa plausível principalmente por meio da ótica dos direitos humanos – mas que ainda demorará décadas para ter alguma possibilidade de mudança.

6) Um dos perigos que corremos é que toda essa ebulição de inconformismo trance as pernas e caía estatelada no chão. Explico: quando o foco de uma reivindicação se dispersa em uma constelação de causas, o risco é que nenhuma ganhe relevo e tudo fique por isso mesmo. Devemos abraçar uma luta de cada vez. Se não for assim, pensaremos que a lua é um tiro ao alvo e absolutamente nada mudará.

7) Quem pensava que as redes sociais serviam apenas para o compartilhamento de gatinhos fofos e lengalengas sertanejas, finalmente está mudando de opinião. Há tempos acredito no potencial transformador das redes sociais como meio de expansão do espaço público. Inclusive, há tempos utilizo as redes sociais com essa intenção. Por tudo o que está acontecendo na última semana, dá gosto de ver que essa teoria, já comprovada mundo afora, também vale por aqui.

8) Em função da mobilização popular que estampa as manchetes dos jornais há dias, sinto absoluta vergonha de quem diz ter vergonha de ser brasileiro. É muito fácil sentar na poltrona, bradar que o Brasil não tem jeito e aquietar os brios com um filme de ação na tevê. Ressentir-se diante de todos os problemas do país mediante uma posição passiva de resignação é fazer papel de idiota – ou daquele tio bêbado que finge entender de política em uma discussão alcoolizada em algum almoço de domingo.

9) Lembrem-se de algo: os inimigos não estão no poder – ao menos não nesse poder midiatizado e divulgado no Diário Oficial. Pelo contrário, os verdadeiros inimigos do Brasil são aqueles que comandam as faces que supostamente estão no poder: os grandes conglomerados econômicos, as construtoras sanguessugas, os fazendeiros escravistas, os bancos com jingles de propaganda de margarina, os pastores parasitários e a imprensa que só divulga o que lhe convém. O front é imenso e a batalha durará anos, mas seu principal alvo deve ser a cooptação do interesse público por interesses privados. Tenhamos isso em mente.

10) A calmaria é o maior vilão de um regime político democrático. Demonstra apatia, conformismo, indolência. Atesta, enfim, a morte do futuro. As manifestações de junho de 2013 trazem um alento nesse sentido: o futuro não é certo, o sistema não está agradando e há um fortíssimo desejo por um amanhã mais justo e fraterno. Quem não percebe essa tendência está fora dos trilhos da história.