Dez breves considerações sobre o início de 2013

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Papa renuncia. “Cinquenta tons de cinza” está na vitrine de toda livraria. Coreia do Norte faz testes nucleares. Carnaval leva milhões às ruas. A Lívia sempre dá um nó na Morena da novela. Meteoro explode no céu da Rússia. Incêndios, furacões, temporais e o Arroio Dilúvio quase botando pra fora. Nesse cenário belíssimo, o que deve ter de pastor anunciando o

Fim dos Tempos e enchendo suas caixinhas com dízimos, não é brincadeira não.

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Diálogo imaginado:

– Se você acha isso tão ruim, quero ver fazer melhor!

– Querida, existem coisas que simplesmente são ruins e não tem jeito. Vai carpir um lote que passa.

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Nenhum programa que conheço para a conscientização que vise o não uso de drogas funciona. Para começar, ninguém conscientiza ninguém de nada. Trata-se de uma falácia iluminista que não dá certo. Para dar um fecho, essas clínicas de reabilitação que se baseiam em pressupostos religiosos, trocam uma droga pela outra. Igualmente errôneas, substituem prisão por prisão, embora por vezes seu trabalho seja necessário. Repressão seria o caminho? Não sei. Ninguém consegue erguer limites reais ao prazer de ninguém.

Prefiro a discussão aberta e totalmente alheia aos primados da punição. Precisamos abandonar o senso comum de que o castigo purifica. Não existe nada mais besta. Mas quando?

Resposta: igualmente não sei.

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Profecia: no dia em que desodorantes forem atrativos para fêmeas e, conjuntamente, realmente proporcionarem 48 horas de proteção, certamente estaremos às margens do Juízo Final.

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Essa coisa de dizer ou mesmo ilustrar via imagens que o Congresso Nacional deveria ser destruído, é um troço pra lá de estranho. Se por um lado expressa uma profunda crise institucional, estrutural, funcional e política do Estado brasileiro, por outro demonstra uma falta de alternativas/propostas para “um outro Estado possível”. Talvez a mira não esteja apontada para o lugar certo, vez que Brasília e sua substância humana, de uma ou outra forma, é o reflexo da ação cotidiana de todo brasileiro.

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Falar sobre saúde, educação e segurança não faz de você um intelectual e/ou crítico se você permanece contemplando (lendo, ouvindo, assistindo, etc.) as mesmas quinquilharias ano após ano.

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Milagres, OVNIs, Illuminatis, espíritos, Nova Ordem Mundial, pactos com o Capiroto e o escambau: eventos que ocorrem ou muito distantes no tempo ou muito distantes no espaço, presenciados por caras que normalmente não tem nenhuma prova do que viram. Ainda assim, cidadão diz: “mas é possível!”. Respondo: “é possível da mesma forma que também é possível que eu encontre duendes na samambaia da vizinha”.

Muita calma, meu povo, muita calma: se fosse pra existir algo realmente poderoso por aí, já teria se manifestado em público nem que fosse por pura vaidade – já que parece que é por isso que tantos mitos religiosos destroem tudo e todos de século em século em tantas culturas.

Mas partindo da constatação de que existe, em algumas cidades, mais de um estabelecimento religioso por esquina – somando-se a isso besteiras propagadas internet afora e fossa mental adentro –, o que poderia esperar? Absolutamente nada diferente, até porque quanto mais lascados estamos, mais buscamos abrigo em misticismos, pseudociências ou motivações like a Dale Carnegie ou Lair Ribeiro.

Na boa, dá medo do futuro.

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A inveja que você pensa que sentem de você é inversamente proporcional àquela que verdadeiramente sentem – e quanto mais você se preocupar com isso, mais ridículo fica.

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Visualizo um crescente desprezo brasileiro pelas ciências sociais e humanas. Isso me lembra a abertura de escolas técnicas pela Ditadura. Mais ainda, me remete à perseguição que juristas e filósofos, por exemplo, sofreram durante o regime de exceção no Brasil. Hoje, em tese, tal perseguição inexiste. Mas essa insistente mania de dizer que “tecnologia é o essencial, construção é o essencial”, direciona as expectativas futuras para a emersão de uma realidade desprovida de análise e crítica, na qual você apenas obedece, baixa a cabeça e contribui para o “progresso da nação”. Tempos sombrios se avizinham: o cinismo de quem conhece as regras e apenas se aproveita das mesmas para se dar bem, provavelmente será a bola oito do amanhã.

Mas será que a história não está apenas se repetindo?

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Sempre e cada vez mais, a falta de laço é um dos maiores problemas da humanidade, especialmente na contemporaneidade, como dizia uma comunidade do falecido Orkut. Mesmo assim, nenhum problema supera a existência dos pinschers, esses morcegos que latem e seus dentinhos de agulha.