Dia do Professor

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Na última quarta-feira, 15 de outubro, comemorou-se mais um Dia do Professor. Homenagens para um lado e lembranças colegiais/universitárias para o outro obscureceram nas redes sociais a tonalidade raivosa do debate eleitoral desprovido de neurônios que infesta esse país.

Todos falando da importância da educação, dos seus mestres e tudo o mais – mensagens bonitas e palavras agradáveis: aquele combo de papel de carta que me lembra as coleções das minhas colegas da segunda série no Odão.

Mas vem cá: as pessoas realmente dão valor para o processo de construção/desconstrução que a educação deve(ria) proporcionar ao indivíduo? Tenho minhas dúvidas – até porque a sociedade não quer seres conscientes, mas burros de carga autômatos e tecnocratas (leia-se: força de trabalho).

E o Estado, como fica nessa sinuca? Se depender de algumas atitudes que observamos nos últimos meses, responde com a clássica tirada do Porta dos Fundos: “Professor?! Bala de borracha!”.

Não sei se há o que comemorar, portanto, em mais um Dia do Professor.

Parece-me uma data furada que serve para valorizar simbolicamente uma categoria desvalorizada material e moralmente.

O fato, porém, é que a gente, como professor, tenta levar adiante a coisa do “professar”, da mudança, da esperança por dias melhores. Mas, quando esse intento bate na porta do senso comum, por vezes encontra em seu caminho um mar de rancorepensares petrificados, enclausurados em um quartinho 3×4 que santifica esse grande estuprador chamado “mercado de trabalho”.

Como responder a essa provocação?

Não faço a menor ideia – mas prossigo na teimosia da afirmação de um outro mundo possível.

Mais uma: esqueçam essa baboseira de que o professor é um “ser iluminado”, privilegiado por qualquer besteira. Isso não existe e apenas desmerece esses caras, favorecendo um discurso que possibilita a exploração da classe. Professor é profissional assalariado e atua condigno com seu preparo, sua remuneração e sua carga horária – como qualquer outro profissional. Consequentemente, todo cidadão que solta o típico “você trabalha ou só dá aula?”, algo corriqueiro nos guetos jurídicos que compõem a minha quebrada, merece um tapa nas orelhas, por exemplo.

Temos de desmitificar o professor – porque os professores também são seres humanos, por mais incrível que possa parecer aos olhos daquele aluno que envia e-mails no fim de semana e quer uma resposta pronta e rápida.

Mas é nessa peleja bruta que seguimos, articulando amanhãs em uma profissão que foca nos meios, jamais nos fins, sendo transgressora e marginal por excelência nesse sistema no qual estamos enredados.

Por isso é que, mesmo que alguns dias atrasado, deixo aqui meu franco e fraterno abraço a todos os que se dedicam a essa profissão – e sabem que educar não é adestrar, mas instigar o pensar na contracorrente de tudo quanto está aí.