Direitos humanos, emburrecimento e patrimonialismo

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Direitos humanos
É triste o tempo no qual defender os direitos humanos se torna questão partidária – e não medida mínima para todo e qualquer diálogo que se queira democrático. Os direitos humanos não pertencem à esquerda ou à direita: tratam-se de uma régua da civilização a partir da qual todo o resto pode ser arguido. Pensar na contramão disso é intenção de pureza – e toda intenção de pureza é totalitária e negativa em relação ao que difere das suas intenções. Todo discurso que prega a pureza, enfim, acaba resultando na barbárie.

Emburrecimento
Se você está doente, procura um médico. Se você tem problemas jurídicos, procura um advogado. Se você quer um software, procura um programador. Se você quer construir um prédio, procura um engenheiro. Então, pela lógica: se você quiser entender a história, deve procurar um historiador; se você quiser entender a política, deve procurar um cientista político; se você quiser entender a sociedade, deve procurar um sociólogo; se você quiser entender ideologias, deve procurar um filósofo. Não é isso? Deveria ser. Mas no Brasil, não é. Ainda pensamos que as ciências humanas e sociais são puro achismo – e a consequência disso é o emburrecimento coletivo. O anti-intelectualismo é perverso, paranoico e embrutecedor.

Patrimonialismo
A negociação descarada de ministérios e secretarias municipais e estaduais sempre ocorreu no Brasil. Em troca de apoio político ou como pagamento de dívidas políticas, todos os governos se utilizam dessa prática. O objetivo do Estado, que é a materialização do bem comum, pouca importa: o que interessa é arquitetar uma governabilidade imoral com a criação de inúmeros cargos para aliados de primeiro, de segundo e de terceiro escalão. As pastas de secretarias e ministérios, porém, devem ser distribuídas levando em conta fatores técnicos, não políticos – o que, salvo raras exceções, jamais ocorre. Enquanto isso não se modificar, pouco adiantam ações paliativas que reduzirão a máquina pública por um lado, com a possibilidade de prejuízos em setores essenciais para o país, mas preservarão a negociação de cargos por outro, sustentando uma pequena elite que rodeia os mandatários estatais tal como aqueles que paparicavam monarcas em busca de favorecimento na Idade Média. O que se espera do Estado é uma boa administração, com retorno social equivalente aos tributos que recebe e direcionamento econômico propício ao desenvolvimento nacional. Uma das inúmeras medidas a serem tomadas para a otimização administrativa, é o loteamento de cargos a partir de critérios absolutamente técnicos e imparciais, não políticos.
O patrimonialismo, caracterizado pela confusão entre público e privado, pelo favorecimento a determinados setores da economia, pelo empreguismo, pelo corporativismo, pelo clientelismo, pelo coronelismo, pelo emendismo, pelo nepotismo, pela troca de favores, pela cooptação midiática, pelo peleguismo e pelo aparelhamento do Estado em prol de interesses estranhos à coisa pública, precisa ser extinto do Brasil – pois esse é o nosso verdadeiro e centenário câncer, independente de posições ideológicas. Nenhum discurso de mudança que deixe de mexer nesse nefasto vespeiro é real: trata-se apenas de um mais do mesmo travestido de novidade – ou seja: cuspida e escarrada demagogia eleitoreira que terá como apoiadores aqueles que pretendem utilizar o Estado em benefício próprio ou para a construção de um projeto de poder voltado aos anseios de determinado grupo e sua horda de protegidos. Por isso é que no Brasil raramente temos a alternância de governos: temos a alternância de quadrilhas.