Direitos humanos, Marcos Feliciano e pensamento binário

0
103

Como pode o deputado federal e pastor evangélico Marcos Feliciano (PSC-SP), o qual diz que descendentes de africanos são “amaldiçoados”, falando ainda que a homossexualidade leva “ao ódio, ao crime e à rejeição”, havendo no Brasil a imposição de uma “ditadura gay”, assumir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que tem como função constitucional e regimental, por exemplo, o recebimento, a avaliação e a investigação de denúncias de violação dos direitos humanos? Trata-se, no mínimo, de uma atitude desprezível e nefasta, fruto de um acordo de bastidores entre PT e PSC, conforme análise do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-SP), que visa a manutenção da governabilidade do partido da presidente Dilma Rousseff.

Trocando em miúdos: para o PT e para o jogo de poder que o partido encena nos altos escalões da República, pouco importa o significado histórico-político dos direitos humanos, mas apenas a possibilidade de permanecer no comando do país, com apoio de uma vasta base legislativa, por tempo indefinido. Como isso se evidencia? Fácil: com a ascensão evangélica neopentecostal e o decréscimo do catolicismo no Brasil (o qual, igualmente nocivo para os ideais laicos, parece-me “mais aceitável” que quaisquer intenções fundamentalistas), a nomeação do pastor evangélico Marcos Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, ajuda na construção de uma massa opinativa favorável ao PT, igualmente lançando aos quatro ventos que a interpretação brasileira oficial acerca dos direitos humanos é a mesma carregada pelo Datena e sua sanguinolência inquisitória e punitivista.

Com relação ao assunto, sou obrigado a repetir o que já disse há algum tempo: passamos por uma época na qual organizações como o Instituto Millenium, somado às mais diversas imbecilidades midiáticas passíveis de serem imaginadas, pregam um discurso neoconservador afetado por um bom-mocismo e um anti-intelectualismo completamente tacanhos.

Mas não posso falar apenas do Instituto Millenium, de algumas facções evangélicas neopentecostais, do PT e do PSC: tenho de falar também que mesmo periódicos nacionais renomados como a Veja e a Carta Capital (extremos opostos em se tratando de posicionamento político brasileiro), incutem em suas páginas análises binárias da realidade, fazendo com que a população se sinta acuada diante da cobrança moral por um posicionamento.

O que significa o pensamento binário? Ou você é contra, ou você é à favor: como você não tem tempo para pensar, para refletir acerca do palco político nacional e mesmo problematizar a crise representativa pela qual passa o Estado brasileiro, deve tomar partido seja da forma que for, pouco importando a sobriedade e a coerência republicana do ponto de vista que carrega. A consequência de longo prazo é nítida: a formação de uma massa bem mandada, hipster em suas pretensões, cujo único objetivo de vida é cultivar da melhor forma possível o seu quintal, nada preocupada com a devastação cultural, econômica e social da vizinhança.

Diante de tudo isso, mais uma vez me sinto traído por ter tido simpatia pelo PT há algum tempo. Acometido por uma desesperança política sem precedentes, percebo que senso crítico e imaginação consciente, aquela que faz você sonhar com um futuro melhor a partir de perspectivas realizáveis mediante um emaranhar de fatores sócio-políticos, são qualidades basicamente nulas no estamento político nacional, afetado pela nossa submissão coronelista que insiste em enxergar o Estado como um grande pai. Mas conjugando a notícia que comento com os jornais das últimas semanas, insistentes em rodopiar em torno da renúncia do Papa, penso que as coisas podem ficar piores: como na Idade Média, logo virá a perseguição aos mouros, sem contar aos umbandistas e aos homossexuais, alvos de uma sanha insana de canalhas que sobem ao poder com apoio de uma parcela populacional mais canalha ainda.

Parece que a esperança do planeta é o apocalipse zumbi. Ou será que não somos já todos zumbis, mumificados em percepções caolhas enquanto uma construção de mais de trezentos anos de luta pela cidadania, pelo direito a ter direitos, cai bem em frente aos nossos olhos, pintada pelo discurso de ódio que propala que “direitos humanos apenas são aplicáveis para humanos direitos”? Penso que não preciso tecer outras argumentações: a realidade fala por si. Sigamos.