Do A ao A

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Gosto de ideias redondas, daquelas que começam em A e terminam em A. Elas me passam certa segurança – e não é à toa, por exemplo, que basicamente todos os textos que escrevo trazem uma estrutura do gênero. Se no primeiro parágrafo inicio falando de algo que tem a ver com “chuva”, a último parágrafo, por culpa lógica, igualmente estampará “chuva” em suas linhas. É possível que essa prática prive meus escritos de maiores malabarismos linguísticos, trancafiando seus dizeres em prisões de suposta racionalidade que existem para simular alguma regularidade no mundo. De qualquer forma, seja para o bem ou para o mal, raramente consigo andar distante desses lugares.

Pudera: quando estabelecemos rotinas (acordar, tomar café, ler o jornal, trabalhar, almoçar, etc.), agimos de idêntica maneira. Até a natureza, com seu ciclo de sol e chuvas, aparenta uma feição mais ou menos lógica. Se em uma estação faz seca, noutra chove – e todo o sistema acaba por se adaptar a esse padrão, de joelhos frente às necessidades do ambiente. Nosso corpo funciona do mesmo modo, aliás – com seus resfriados sazonais e seus surtos de dor de barriga após um xis tudo na madrugada. Mas será que a história, tanto individual quanto social, apresenta padrões do tipo?

Penso nisso enquanto leio notícias do Brasil e do mundo. Crise de imigração na Europa, Estado Islâmico aterrorizando a África, China dando sinais de que lentamente é envolvida em uma crise econômica, Brasil imerso em uma crise política seguida de uma decadência do mercado, políticos e empresários chafurdando o chiqueiro de mil escândalos, miseráveis sendo assassinados em prol de uma higienização social – e meu estado natal, o Rio Grande do Sul, com seu centenário orgulho ferido ao não conseguir arcar com os seus compromissos básicos. Será que isso tudo, para lembrar Cazuza, não passa de “um museu de grandes novidades” ou há um elemento singular e estranho que diferencia essas situações daquelas presenciadas no passado?

Não tenho inteligência e muito menos conhecimento para traçar uma resposta viável. Embora, como todo o ser humano e na senda de Hegel, tenha a narcísica e megalomaníaca pretensão de abarcar em um raciocínio o movimento da própria civilização, trago a convicção de que isso é impossível – assim como é improvável que algum dia a física consiga unir em uma única equação a mecânica dos grandes corpos com o movimento infinitesimal da matéria. O máximo que posso fazer é elencar conjecturas a partir de escassos pontos de apoio, como quem busca um destino em meio a uma tempestade eletromagnética que faz com que os ponteiros da bússola fiquem doidos.

Nesse entrevero e apenas baseado no pequeno mirante do meu cérebro, o que vejo é uma realidade completamente diversa daquilo que já foi vivenciado anteriormente pela humanidade. Vejo o mundo conectado pela tecnologia, avanços impensáveis no campo da genética e da biologia, o ser humano com o ímpeto de desbravar as estrelas e mirando uma intangível fração do futuro no qual habitará outros planetas. Mas ao tempo em que enxergo esse desenvolvimento sem precedentes, também visualizo uma raça que não sabe lidar com os seus impulsos, que não se deu conta de que somente o senso de irmandade e de responsabilidade para com todas as espécies é que poderá livrá-la do suicídio, flertando, incansável e tosca, com fanatismos irracionais, com arrogâncias mil, com ganância e egoísmo ao passo que todas as suas conquistas positivas aparentam caminhar em sentido contrário.

Nessa estrada é que a estranha condição da história humana se revela: se em alguns períodos dá dois passos para frente, logo dança em quatro passos para trás, formando um código que pode até ser mensurável por alguma sofisticação do intelecto, mas que nunca conseguirá ser completa e totalmente previsível em seus rumos. Esse cenário comprova uma coisa: aquela intenção de racionalidadeque insisto em trazer comigo, cai ao vento do que a realidade comporta, confirmando que os padrões que presencio e organizo nem sempre sobreviverão ao choque com elementos que estão fora da sua estrutura. É como a paixão e o amor: ainda que não queiramos, que sequer imaginemos, sem mais nem menos batem em nossa porta e bagunçam toda a ordem que um dia julgamos sólida em seus alicerces.

Esse fator surpresa, essa imprevisibilidade que destoa do curso calmo dos dias, é que dá sabor à vida. Podemos até cobrar uma história fechada e coesa em um filme ou em um romance – mas se não admitirmos que histórias do gênero sóexistem na ficção, agiremos como cegos diante do quadro caótico da existência. Não há como saber se a nossa espécie de autodestruirá ou irá construir um amanhã fraterno, pois não há como saber com exatidão o que nos aguarda a cada amanhecer. Toda caixa hermeticamente fechada se comunicará com o que lhe rodeia – e todo o texto que se amarre em ideias redondas, que vão do A ao A, jamais será algo além de um simples texto: tentativa sempre fracassada e arrogante de organizar o que é impossível ser organizado.