Dois problemas

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Certas empresas, consoante relatos que ouço, em vez de incentivarem os indivíduos a crescer por meio de fatores pecuniários correlatos às capacitações dos sujeitos, promovem o discurso de que o empregado deve se sentir orgulhoso por trabalhar em tal ou qual local, já que isso resultaria em uma retribuição moral e/ou pessoal por parte da empresa.

Na outra ponta do fenômeno, outras empresas, para não demitir certos indivíduos, realizam uma pressão imensa no empregado, fazendo com que o ambiente de trabalho, seja por picuinhas ou negações despropositadas, torne-se insuportável e/ou nada afável, criando uma situação propícia para que o empregado peça demissão e assim não seja indenizado.

A justificativa, em seu centro, é sempre a mesma: a empresa deve crescer e o empregado tem o dever de contribuir para isso custe o que custar.

Mas não seria o caso da empresa crescer em conjunto com os empregados, retribuindo capacidades por mérito em vez de condicionar ascensões por puros interesses que de modo algum passam pela qualidade do serviço prestado pelo funcionário?

A conclusão é uma e apenas uma: ainda que a chibata esteja longe de nós no sentido temporal, seus tentáculos continuam descendo em nossas costas.

Todo discurso motivacional, por exemplo, detém alicerce em uma tentativa de suportar essa “surra psicológica” que alguns empregados sofrem diariamente.

O pior de tudo é que aqui vale a Dialética do Senhor e do Escravo de Hegel, a qual, de maneira simplista, prediz que o escravo só é escravo porque aceita a autoridade do senhor. Afeitas a um costumeiro servilismo, muitas pessoas esquecem a perversão social e a anormalidade existentes no fato de alguns ganharem muito e outros pouquíssimo.

Parece que Cazuza continua certo: vivemos em um museu de grandes novidades.

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Não apenas o religiosismo contemporâneo, seguido do preconceito étnico, social e sexual, ameaça as conquistas republicanas e democráticas brasileiras e mundiais.

Na outra ponta do problema, há a colonização da política pela economia, de maneira que a democracia representativa/parlamentar atual, no mais das vezes, torna-se mero simulacro, fantoche de uma teia de interesses particulares que habitam a coisa pública, o que se percebe tanto ao nível municipal quanto estadual e federal.

Enquanto “liberdade” permanecer como sinônimo de “individualismo”, substituindo a figura do “cidadão” pela figura do “consumidor”, não há cenário propício para mudança, visto que tal posição é ausente de uma consciência ético-política. Mesmo assim, movimentações para quebrar esse status quo institucionalizado tem se espalhado pelo mundo nos últimos anos, o que certamente é benéfico.

Mas para a superação dessa realidade na direção de um cenário “pós-partidário”, afeito eminentemente aos direitos humanos, muito ainda deve ser feito. Diagnostico, portanto, que estamos engatinhando, já que grande parte das pessoas ainda vê os manifestantes de Porto Alegre em relação ao exorbitante preço das passagens de ônibus cobrado pelo Governo Fortunati (PDT-RS), por exemplo, como “desocupados”, “vândalos” e “arruaceiros” – visão que se constrói, é de se admitir, com grande auxílio das empresas de comunicação dominantes no Rio Grande do Sul.

Marx, no final das contas, permanece um tanto certo ao afirmar que o Estado é reflexo das intenções de uma classe dominante em relação a uma classe dominada. Ainda que o papel estatal tenha diminuído diante do poderio econômico-financeiro global, existem cidadãos que consideram normal e corriqueiro o reconhecimento de que uma casta econômica se reveza na distribuição do poder em municípios, estados e mesmo no patamar federal.

Não trago expectativas de mudança para um curto espaço de tempo. O que sei, porém, é que mexer no vespeiro é complicado, mas extremamente necessário.