Drops de tragédias

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Morte, tristeza e cenários desoladores se sucedem nas manchetes dos jornais e nos programas de televisão. Há algum tempo, era um vulcão na Islândia que paralisou o espaço aéreo europeu. Logo depois, um desastre ambiental no Golfo do México acompanhado do deslizamento do Morro do Bumba no Rio de Janeiro – isso para não falar da intensa cobertura do acidente na Boate Kiss. Recentemente, o jogo de nervos entre Coreia do Sul e Coreia do Norte seguido de notas e mais notas acerca do julgamento dos policiais militares envolvidos no Massacre do Carandiru. Mas alguém reparou que muitas dessas notícias das últimas semanas foram basicamente esquecidas em função do atentado na Maratona de Boston?

O que se extrai desses fatos é a fugacidade das notícias que interessam para a grande imprensa. Imagens de um cenário surreal como aquele aos pés do vulcão na Islândia, interessam mais às câmeras que catástrofes humanas e reais que todos os dias acontecem pelo Brasil. Não importa a sonegação da saúde perpetuada por médicos e hospitais, não importa a objetificação dos sujeitos promovida por arrogantes posturas do Judiciário – e nem mesmo importa o fato da periferia de Brasília sofrer uma crescente favelização porque a capital federal não foi projetada para tantas pessoas. Interessa a glamourização do precário, como se acontecimentos que não afetam a vida do brasileiro em geral pudessem torná-la mais interessante ou ao menos mais suportável.

O que acontece, como ilustra Herman Melville em “Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street”, é que a piedade e a melancolia que temos diante de tragédias e dramas humanos logo se transforma em medo para após se fixar na repulsa. A razão disso não é anormal. É comum que ao observar tantas mortes, tristeza e destruição, tenhamos piedade das pessoas afetadas e sintamos uma melancolia passageira. Essa piedade e essa melancolia, porém, aos poucos se tornam medo, uma vez que percebemos que podemos passar pela mesma situação. Diante do medo e da possibilidade de evitar o medo, nossa próxima reação é a repulsa. Mais vale repudiar um assunto do gênero que conviver com a sua incômoda presença. A lógica é varrê-lo para um canto escuro e seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

O que as mídias de massa perceberam foi isso. Não adianta bater em teclas que de tão batidas são consideradas normais. Não adianta falar para as pessoas o que elas sabem e não querem ouvir porque de certa forma se aproveitam desses problemas para conversar com o seu próprio egoísmo. Mais lucrativo é mostrar um terror duvidoso que insistir em uma mudança que os cidadãos não querem porque irá perturbá-los em sua ignorância saudável. Relâmpagos de notícias valem mais que os próprios platôs que foram iluminados por esses relâmpagos.

Ainda que se tenha noção da postura inteligentíssima do ponto de vista mercadológico adotada por essas empresas, nada disso detém a mínima perspectiva de transformação se o próprio receptor (espectador, leitor, internauta, etc.) não mudar. Mesmo que a solidariedade seja um sentimento sublime, vendê-la em drops de tragédias apenas alimenta a impessoalidade para com aqueles que sofrem essas tragédias, como se fossem apenas números a ser contabilizados em um balanço contábil. Um cartão postal de filme-catástrofe vende muito mais que uma insistência pela mudança, tornando o brasileiro um eterno acomodado que no silêncio da sua sala de estar ignora a pobreza que circunda sua casa bem ventilada. Vivemos a época do conformismo generalizado e alucinógeno. A diferença entre nós e os usuários de algumas drogas ilícitas, é mera questão de substância. O que ambos tentam fazer é simplesmente fugir da realidade.