Endoscopia

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Ando com o bucho meio estropiado. Coisa de quem não se cuida direito. Esses dias tive que fazer uma endoscopia. De início, me senti invadido por uma sonda extraterrestre. Dei uma engasgada, umas quase tossidas e confesso que até que foi tranquilo. Final das contas, descobri que tenho esofagite e gastrite. Esofagite nível A em uma escala que vai até D, considerando que A é tranquilo e D é infernal, pelo que posso supor. Gastrite enantematosa, a qual, consoante me disseram algumas páginas sugeridas pelo Google, é uma inflamação das paredes do estômago.

Sorte a minha. Antes da consulta com o médico e da realização do respectivo exame, estava paranoiando, com receio de tudo isso. Pesquisar por doenças na internet é certeza de que você tem câncer. Já repararam? Tudo é câncer. Dor de cabeça? Câncer. Diarreia? Câncer. Unha do pé encravada? Câncer. É pra deixar qualquer um com mil pulgas atrás da orelha – principalmente se esse “qualquer um” é um cara como eu, que fica devaneando em mil perspectivas quando sente a mínima dor.

Não é que eu seja hipocondríaco. Longe disso, embora tenha passado por algo parecido há alguns anos. O fato, apenas e tão somente, é que sou muito preocupado. Tenho medo de morrer de uma hora para outra e não passar por tudo quanto quero passar nesse planeta. O estranho é que não trago muito receio dessas mortes fatais, tipo acidente de avião. Meu porém, por outro lado, é com essas mortes lentas, do gênero que você descobre com meses de antecedência e então puff.

Histórias dessa verve só são bonitas no cinema. Na via-crúcis de cada dia, são um terror. Sem contar que existem milhões de porcarias que podem dar um fim para a sua vida. Se bobear, até uma alface mal lavada tem o poder de dar um ponto final para você. É interessante pensar nisso. A vida é frágil. Habita, na forma que conhecemos, uma fina camada atmosférica de um mundo azul. Dizem que existe em outros lugares, que é um tremendo desperdício de espaço só ocorrer aqui – mas são apenas conjecturas.

Adoramos conjecturar, aliás. Uma nuvem não pode ser só uma nuvem, uma mancha na parede não pode ser só infiltração e um barulho na janela às três e meia da madrugada não pode ser só o vento. Precisamos colorir tudo, dar realce, textura. Isso é bonito. Quem sabe, a razão de ser das artes. Não fosse assim, qual seria a graça dos nossos dias? Cairíamos em um tecnicismo cinzento, metálico e emburrado. “O mais”, assim, é primordial, desde que dosado.

Daí que até compreendo quem fica ansioso pelo lançamento do novo iPhone, por exemplo. Bugigangas tecnológicas, para adultos, são como a Peppa Pig para crianças: fascinam de um jeito que ninguém entende direito. Mas entre curtir uma parada dessas e ficar refém de gadgets, há uma larga diferença – diria que uma diferença semelhante àquela que existe entre a preocupação e a paranoia. Preocupação é importante. Medo é primordial. Faz você ser cauteloso aqui e acolá – e sem esse sentimento ou seja lá o que for, nossa espécie já teria batido as botas há muitos séculos. Paranoia, pelo contrário, é pensamento fixo, petrificado: invade sua trama neuronal, escapa pelos seus poros e consome seus dias. Não vale a pena: é uma assassina do ânimo, do tesão pela vida.

Precisamos de leveza para viver bem. Não adianta sermos pesados, encucados nesse carreirismo consumista que quer porque quer ter tudo aquilo que nossos cartões de crédito não podem pagar. Rabiscos e colorações destacadas que se querem Romero Britto são legais até certo ponto – porque tenho a convicção de que uma nuvem pode ser só uma nuvem e ainda assim ser bela. Basta mudarmos nosso olhar e perceber que é o detalhe e não necessariamente o todo que causa aquela sensação de fascínio.

Por isso é que hoje estou tranquilo com minha gastrite e minha esofagite. Claro que terei de fazer o tratamento certinho, me alimentar com alguma consciência e seguir as prescrições médicas. Mas é mil vezes melhor saber o que você tem do que ficar que nem o Bentinho da Capitu, engordando dezenas de monstrinhos mentais que tomam conta do seu cotidiano – e acabam traindo sua razão.

No cair das moedas, perdi o medo da endoscopia – e concluo que é melhor um estômago meio estropiado que uma cabeça que tira você do sério.