Ensaio de dezembro (ou “Prolegômenos para o fim do mundo”)

0
124

O passado é como um tecladista de sexta tocando Wando em uma churrascaria de beira de estrada. Você sabe que é algo franco, mas também tem a consciência de que é algo patético. Relembrar é necessário. Mas está longe de ser bom. Desconfio da veracidade de todas as falas que dizem ser a infância a melhor época da vida, por exemplo. A razão é simples. Se você colocar os poréns na balança, perceberá que jamais sofreu tantas privações e/ou restrições quanto na infância. Família, escola, religião, crueldade mirim e o escambau. Por todos os lados, a criança encontra correntes ao seu ímpeto de liberdade.

Quem nunca tomou um corridão por “fazer arte”? Pois é – tenho a teoria de que essa é uma das razões para as pessoas geralmente terem tanto pudor com a palavra “arte”. Quem sabe o inconsciente a remeta diretamente para o termo “transgressão”, de maneira que crescemos com receio de andar fora da linha em razão da punição que supostamente receberemos se a praticarmos. Será esse um dos motivos para o aparente marasmo criativo contemporâneo? Não sei, até porque não acredito em mansidão artística. Basta você vasculhar que encontrará zilhões de sujeitos antenados em sua época, interpretando essa babel atual por meio de signos que a descrevem melhor que a mais complexa teoria.

Problema é: quem tem coragem para se arriscar no caos? Resposta é: em um contexto de mais de seis bilhões de pessoas, poucos, raros, escassos. A criação incomoda porque nos põe face a face com nosso maior temor: a finitude. A perspectiva do “criar”, envolve-nos na inevitável responsabilidade de construirmos um projeto de vida e com ele nos comprometermos. Mas quem tem tempo para pensar nisso? Pessoal tem que pagar as contas, correr atrás do diploma e se cuidar para não ser assaltado. Vivemos enclausurados em bolhas de sentido que cremos universais, mas que apenas expressam nossa falta de coragem com relação ao diverso, ao novo, ao diferente.

Se por um lado somos individualistas ao extremo, preocupados unicamente com nossos jardins e umbigos, por outro temos pena do Will Smith e sua solidão enlouquecedora em “Eu sou a lenda”. Quando nos defrontamos com o fato de que dependemos uns dos outros para existir, tapamos essa percepção com alguma alegoria que sustente nosso insustentável estilo de vida, marcado por uma incessante produção de resíduos. Isso mesmo: resíduos, pois talvez o melhor espelho da contemporaneidade seja o lixo material e imaterial que produz. Enquanto turbinamos festas e carros com refrões absolutamente imbecis, também entulhamos planeta adentro o lixo que provém da nossa busca desenfreada pelo prazer.

Não que seja errado, já que todos merecem e precisam gozar. Mas quando o prazer encontra eco em uma justificativa para se fazer corpo, existe algo estranho acontecendo. É aquela: medito para trabalhar melhor, caminho para regularizar a pulsação, bebo para relaxar. Por quê?! Por que não basta o ato pelo ato, livre dos penduricalhos da argumentação? Isso nos priva de olhar para fora, retira-nos a possibilidade de encontros e nos joga em um círculo cada vez mais restrito, como se fôssemos doidos que alucinam ao redor de totens absurdos criados por um jogo de símbolos que nubla a realidade. É preciso que nos deixemos levar. É preciso maior risco, rabisco, visto que do contrário jamais teremos a bela sensação de perder o chão e então nos sentirmos momentaneamente livres de tudo. Claro que angústia virá. Mas sem essa perversão do que é tachado como “normal”, o sabor da vida vira uma salada de chuchu – só tem gosto por conta do vinagre e do azeite de oliva.

Por isso relembrar é complicado. Quando você conscientiza certas coisas, adquire o senso do erro e do acerto, visualizando em quem foi o mar de equívocos que resultou em quem é.

No entremeio, muitos sorrisos e alegrias, havemos de convir. Mas aparentemente, somente aprendemos com a dor e com a culpa, o que talvez se deva a uma moralidade judaico-cristã que nos atinge do berço. Explico: cremos que a dor é que ensina, a punição é que purga, a doença é que cura – e isso está errado. Como mudar, não sei. Mas sei que existe algo de podre no Reino da Dinamarca, como diria Hamlet.

Penso, enfim, na esteira de Montaigne, que filosofar é aprender a morrer: somente chegamos a alguma calma e serenidade quando nos acercamos completamente da nossa condição finita e da nossa solidão cósmica. Mais: isso nos remete ao outro, àquele anônimo da fila do banco, e nos impinge o senso de que estamos juntos nessa estrada, dependendo nosso rumo do reconhecimento da nossa comunhão de destinos. Sim: o tempo destrói tudo, como grita o letreiro de “Irreversível” de Gaspar Noé quando dos créditos finais do filme. Mas se promove a implosão de tudo, também relega instrumentos para a construção de sentidos fraternos a partir dessa implosão.

Precisamos abdicar da lógica amigo/inimigo, dentro/fora, nacional/estrangeiro, estranho/normal. Tudo faz parte de uma teia imensa na qual surfarmos em co-responsabilidades de impossível renúncia. Cada pequeno ato que cometemos afeta o sangue dos outros, como certa vez constatou Simone de Beauvoir – e a nitidez desse horizonte é que pode nos transformar em melhores seres humanos, percebendo que embora a existência, assim como o amor, seja tão desprovida de significado último quanto uma carta do Pateta para o Pernalonga, existe algo muito maior que nos une e nos incute o dever de encarar todo e qualquer indivíduo como nosso igual. Isso é difícil? É. Tenho esperança de uma mudança moral e ética universal em curto espaço de tempo? Não. Mas tais constatações não me retiram a voz. Afinal, não quero que no futuro recorde do meu hoje e visualize em minha face aquele tecladista de churrascaria que certa vez me causou congestão em uma viagem para Porto Alegre.
Se o mundo não acabar, claro.