Especiais e motivados

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1.
O discurso motivacional mimou tanto tantas pessoas, que tem uma penca de gente que realmente acha “está destinada ao sucesso” e que “é especial”. Quando se dá mal, não assume a responsabilidade e a culpa sempre é do outro, seja ele quem for. De tanto olhar para o próprio umbigo, tropeça e xinga a pedra – e não nota sua desatenção. Como adora ficar na frente do espelho, pensa que sempre tem razão e não percebe que age feito criança marrenta de seis anos. O que concluo? Essa galera precisa carpir uns lotes com urgência.

2.
O sujeito que se acha especial possui a construção mental de um adolescente de 14 anos: grita, conspira, fofoca, diz que é injustiçado e crê cegamente que sabe de tudo. Paparicado por pais, professores e pela tevê, sem contar os livrinhos e as palestras de “autoajuda”, o sujeito que se acha especial pensa que tem direito ao mundo, mesmo que não possua dever com nada. É preguiçoso, avarento, egoísta e portador de uma viseira de cavalo tão, mas tão limitada, que não vê mal nenhum no mal que faz aos outros, mas apenas no suposto mal que sofre todos os dias. O sujeito que se acha especial não tem senso de responsabilidade mútua, não tem crise existencial ou consciência pesada: tudo se resume a ele e a quem concorda com ele – e uma sociedade pautada por uma cultura individualista do “sucesso a qualquer preço”, produzirá centenas de sujeitos assim.

3.
Burrice não é o mesmo que ignorância: enquanto ignorar é desconhecer, burrice é saber ou poder saber e ainda assim deixar de lado aquilo que está ao seu alcance. Você pode escolher ser burro, mas as pessoas não são obrigadas a ouvir o que você tem a dizer – e diante de questionamentos medianos, você ficará vermelho e se aquietará. Ocorre que quando o sujeito é burro e fanático, sentirá o dever de espalhar e pregar suas “verdades”. Afinal, a burrice, o fanatismo e a ignorância sempre andam de mãos dadas. O pior de tudo, porém, é que o burro fanático não terá sequer vergonha de falar o que fala, tornando-se um idiota convencido que encontrará outros tão ou mais idiotas que o farão acreditar que está certo, formando um ciclo que se alimenta da sua própria estupidez e se expande exponencialmente em sua abrangência. Nelson Rodrigues diagnosticou: “o grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” – mas certamente não contava que no século XXI esse movimento ganharia tanta e tamanha força, unindo o grupo dos burros fanáticos a um novo grupo: aquele dos burros que se acham especiais.

4.
Não é que você era mais feliz antigamente: você era apenas mais ignorante, mais inocente e certamente tinha menos responsabilidades. Ou seja: você não percebia e não sentia muita coisa que hoje nota e sente. A questão é que você tem que saber lidar com menos inocência, menos ignorância e mais responsabilidades – e não boicotar essa realidade porque não sabe trabalhar com ela (pois se você fizer isso, possui chances imensas de virar um boçal). Resumindo: o mundo nunca “foi melhor”, você que era mais bobo e tinha menos ocupações – e se não souber viver assim, irá se tornar um idiota.