Fascismo em cio

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Michael Mann, na obra “Fascistas”, a qual promove um estudo dos principais movimentos fascistas do século XX, dispõe cinco características para o fascismo: 1) nacionalismo (o apelo à pureza da “nação originária”, a qual deveria promover a união de todos); 2) estatismo (o uso de um Estado autoritário para alavancar o nacionalismo); 3) transcendência (tentativa de anular as diferenças sociais e as desigualdades em prol do “chamado à nação”); 4) expurgos (delimitação de inimigos étnicos, sociais ou políticos que devem ser eliminados em prol do bem comum); 5) paramilitarismo (armar a população a fim de que ela coloque em prática os outros quatro pontos do programa).

Além disso, historicamente, o fascismo sempre surgiu na classe média, seja ela ligada ao funcionalismo público ou aos pequenos empresários, embora também conte com o apoio de setores da classe baixa – e com a conivência da classe alta –, não sendo exclusivamente um movimento de direita, mas sendo majoritariamente um movimento de direita que aparece em momentos de crise (estatal, econômica e social) e incerteza.

Diante desse quadro, é possível afirmar com tranquilidade que alguns discursos políticos atuais são fascistas: 1) são nacionalistas (“sem partido e pelo Brasil”; “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, etc.); 2) são estatistas (servem-se do populismo penal como meio de instituir um Estado que “una a nação” através da punição: “datenização da opinião pública” na busca de penas mais severas aos “clientes penais” de sempre, caracterizados como “inimigos internos”, etc.); 3) são transcendentes (negam vozes que reconheçam a desigualdade social e promovam a conscientização dessa desigualdade, pois elas seriam “contrárias à nação”: projeto “Escola sem Partido” e propostas de exclusão e/ou “flexibilização” de disciplinas como filosofia e história da matriz escolar brasileira, etc.); 4) elegem expurgos (LGBTT, indígenas e “comunistas”, por exemplo: “Estatuto da Família”, projeto para exclusão de siglas “comunistas” do sistema partidário brasileiro, projeto para modificar o método de demarcação de terras indígenas, etc.); 5) possuem intenção paramilitar (armar a população seria uma saída no combate à violência “em prol da nação”: facilitação do acesso legal às armas de fogo, etc.).

Claro que o encaixe não é perfeito e talvez resulte em uma espécie de “fascismo soft”, especialmente em se tratando da questão do paramilitarismo, que é problemática – até porque, regimes totalitários como o da URSS pregavam o desarmamento da população com a finalidade de estancar possíveis revoltas. Somando-se a isso, o regime soviético promovia a perseguição de intelectuais que discordavam das suas diretrizes e estava centrado em um estatismo tipicamente socialista. Tanto a cultura da extrema-esquerda quanto a cultura da extrema-direita são excludentes. Portanto, pode-se referir que a eleição de expurgos e o estatismo não são caracteres necessariamente fascistas, pois despontam igualmente em outras tendências ideológico-políticas com viés totalitário – inclusive a cubana, em alguns aspectos.

Mesmo assim, a natureza fascista de alguns discursos políticos contemporâneos é óbvia. Como disse Bertolt Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio” – reconhecendo-se que os movimentos fascistas, embora sejam majoritariamente de direita, igualmente podem ser de esquerda. Impulsos totalitários que implicam na negação da diversidade em prol da unidade não escolhem lado ou partido – e geralmente se espalham como um vírus pela sociedade.

Poucos argumentos políticos são tão fortes quanto o “apelo à nação” – ou seja: o nacionalismo, que é a raiz de todo e qualquer movimento fascista. Por esses motivos fundamentais e resumidos, é que “intenções de pureza em prol da nação”, sejam em apoio a um igualitarismo exacerbado ou em apoio a um libertarianismo maximizado (o primeiro, comum à esquerda e o segundo costumeiro à direita), merecem desconfiança crítica e racional. Afinal, assim como podemos ser preconceituosos de modo inconsciente, podemos ser fascistas de maneira inconsciente.