Fome e poder

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Fome
Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), 840 milhões de pessoas não têm comida suficiente para se alimentar, 159 milhões de crianças possuem estatura muito baixa para sua idade ou são cronicamente malnutridas – e 50 milhões de crianças contam com peso muito baixo para sua altura e sofrem risco de morte. Entretanto, 1/3 de toda a comida produzida no mundo, aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas, é perdido ou desperdiçado nos sistemas de produção e consumo de alimentos.

Ao passo que há essa realidade, porém, a Wealth-X, em relatório divulgado esse mês, condizente com o período de 2015/2016, averiguou que o grupo com fortunas de no mínimo um bilhão de dólares aumentou 6,4%, correspondendo a 2.473 indivíduos distribuídos pelo planeta – enquanto a economia mundial cresceu apenas 3,1% no mesmo período. A riqueza combinada dessa parcela da população totaliza 7,7 trilhões de dólares, de maneira que, proporcionalmente, há um bilionário para cada 2,95 milhões de pessoas.

São, enfim, 840 milhões de seres humanos que não têm o mínimo para sobreviver e 2.473 pessoas que podem usufruir de todas as benesses da civilização.

Não tenho capacidade e conhecimento suficientes para analisar com profundidade esses dados em todas as suas causas e consequências, mas uma coisa me parece indiscutível: existe algo de muito errado com o nosso estilo de vida e principalmente com o sistema econômico no qual estamos imersos.

Poder
O Judiciário teve reajuste salarial de 41,47%, mas a Justiça do Trabalho teve um corte de 90% do orçamento pedido ao Congresso e 30% nas verbas de custeio – o que já levou diversas Varas do Trabalho a cogitarem o encerramento das suas atividades. Quanto às universidades federais, no início de 2016 haviam sofrido uma redução orçamentária de 30%, a qual se somará a mais uma redução de 15,2% – totalizando um corte de 45,2% para 2017.

Enquanto isso, em 2015, a sonegação de impostos atingiu a marca de R$ 420 bilhões, levando também em conta que, conforme dados de 2013 do IBGE, os 10% mais ricos do Brasil concentram 42% da renda nacional.

Não sou economista, mas é difícil não reconhecer que esses números aparentemente traduzem uma estratégia política: sucateie o patrimônio público e não invista em qualidade da gestão para depois dizer que o que é estatal não funciona e pregar a privatização do ensino e a flexibilização de direitos fundamentais, principalmente trabalhistas e previdenciários, beneficiando aqueles 10% do topo da pirâmide que também são os maiores responsáveis pela sonegação de impostos no país.

Quem sai perdendo e a quem o Estado serve?

A resposta parece ser óbvia.