Gabriela, a porrada e o Tatu-Bola: a história de um cuspe

0
106

Na noite de 4 de outubro de 2012, a manifestação denominada Defesa Pública da Alegria terminou de maneira lamentável em Porto Alegre. De posse do argumento de que a Prefeitura da Capital, sob o comando do Prefeito José Fortunati, realiza a privatização de espaços públicos, como o Largo Glênio Peres e o Auditório Araújo Vianna, ambos patrocinados pela Coca-Cola, o protesto iniciou na Praça Montevidéu de forma pacífica e animada, reunindo centenas de pessoas. Em torno das 22h30min, os ativistas se deslocaram ao Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público, para promover manifestações junto ao boneco que representa o mascote da Copa do Mundo de 2014 – o afamado Tatu-Bola.
Quando essa movimentação começou, a Brigada Militar estava parada ao redor do boneco, aparentemente inerte frente à caminhada da multidão. Tendo em conta diversos relatos, os policiais permitiram que várias pessoas ultrapassassem a grade que protegia o mascote, o que, mediante a exaltação de ânimos, deflagrou o que apenas pode ser descrito como uma “batalha campal”. Sessenta policiais militares do Pelotão de Operações Especiais (POE) do 9° Batalhão da Polícia Militar, além de tropas da Guarda Municipal, foram deslocados ao local. Para conter o avanço da multidão, foram utilizadas bombas de gás lacrimogêneo e tiros com munição não-letal. Como resultado, ao menos vinte manifestantes restaram feridos e outros oito foram detidos pela Brigada Militar.

Certamente a necessidade de repressão da multidão por parte dos agentes públicos foi o descontrole de alguns cidadãos, os quais transformaram uma manifestação inicialmente pacífica em um ato distante dos seus propósitos iniciais. Mas nada justifica os excessos cometidos pelos policiais com relação às pessoas presentes no local. Exemplo claro desses excessos é o que aconteceu com Gabriela Kliemann Dias, a qual residiu em Santo Ângelo por quatro anos. Atualmente morando em Porto Alegre, Gabriela é estudante de jornalismo e colaboradora do Facool, empresa que atua no ramo. Com a intenção de fazer a cobertura jornalística da manifestação, Gabriela foi agredida por três policiais enquanto filmava a ação com um telefone celular. O vídeo que comprova a agressão aos 3min de gravação pode ser acessado no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=4N6L8pXlR3g&feature=youtu.be), considerando-se que o mesmo já se encontra em posse da Secretaria de Segurança Pública do Estado e do Ministério Público.

“Eu fui gravar uma guria sendo espancada no chão por um policial e acabei sendo detida, me jogaram no chão, pegaram meu celular e quando eu disse que não era vagabunda (eles estavam me chamando não só disso) e afirmei que era estudante de jornalismo, resolveram me algemar e me levar pra delegacia”, relata Gabriela, que afirma também que os policiais colocaram um cassetete no seu pescoço e tentaram de toda forma arrancar seu telefone celular. “Até que eu comecei a apanhar, pisaram no meu seio e eu entreguei o celular. No caminho, após ser detida, um deles estava quase quebrando meu braço e eu pedia pra ele parar e ele dizia: ‘vagabunda, eu vou quebrar esse teu bracinho’”. Como se percebeu nos dias posteriores à manifestação, a cobertura da imprensa foi massivamente no intuito de “criminalizar” os ativistas. Porém, mesmo que se admita que vários manifestantes tiveram condutas reprováveis, excessos cometidos pelos agentes policiais presentes no local merecem ampla investigação.

À parte essas considerações, a problemática que envolve o caso me parece clara, pois quando um jornalista é agredido, há um cuspe na cara da opinião pública e da democracia. Além disso, quando forças policiais se reúnem em torno de um boneco inflável, como se tivessem intenções de “protegê-lo”, há evidências de que vivemos em uma sociedade esquizofrênica. O preocupante, contudo, é que quando Gabriela, a porrada e o Tatu-Bola são fatores que compõe o mesmo trinômio, percebemos claramente que a ascensão do conservadorismo brasileiro é voz ativa na construção de um Estado que está anos-luz distante das disposições republicanas contidas na Constituição Federal. Diante de tamanhas bizarrices, uma última: escrevo tais linhas em 2012. Convenhamos que as mesmas palavras, com algumas poucas alterações, cairiam perfeitamente aos anos de 1969 a 1974, período no qual o Governo Médici mergulhou o país em um dos momentos mais duros do Regime Militar. O que espero é que este texto não seja um sintoma ou talvez uma espécie de “premonição” quanto aos dias que virão. Do contrário, eu, Gabriela e milhões de brasileiros enfim iremos conhecer o pau de arara.