Gatos

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Não gosto de gatos. Cachorros me agradam, mas gatos me enojam e não sei ao certo o motivo. Aquela coisa de os bichos ficarem ronronando e se lambendo, querendo se esfregar nas suas pernas com o rabo em riste, me passa um ar de empáfia que desaprovo.

Não que eu saia por aí matando bichanos ou seja covarde ao ponto de maltratar qualquer animal. Nada disso. Apenas, se possível, quero gatos longe de mim, assim como prefiro manter uma respeitosa distância de petistas irracionais, peessedebistas de ocasião e peessebistas de velório.

Contudo, da mesma forma que não sou capaz de evitar os sujeitos acima descritos, não sou capaz de evitar os gatos.

Quando faço meu intervalo no trabalho, perto das cinco da tarde, uma gata branca sempre aparece miando pro meu lado em uma das cantinas da faculdade. Nas primeiras vezes em que a dita me fitou, veio passo por passo na minha direção, confiante que eu lhe daria uma parcela do meu lanche. Olhei para o bichinho e o percebi gordo, certamente criado a pastel e coxinha. Fiz um “não” com a cabeça e parou por aí. Ela até tentou uma aproximação com aquela estileira lânguida que só os gatos possuem. Mas não dei bola e logo, cabisbaixa, a gatinha se foi.

Por tardes e mais tardes, ocorreu exatamente o mesmo: ela vinha toda querida e mimosa, eu meneava um “não” e nosso contato acabava assim.

Esses dias, porém, dei brecha. Joguei para a gatinha um pedaço de bife à milanesa. Ela correu, abocanhou a iguaria e se foi.

Nossos encontros subsequentes, devo frisar, não foram frutíferos ao estômago da bichana e mantive o mesmo desdém que alguns até podem criticar. O estranho é que daquele dia em diante, quando a gata me vê e percebe o “não”, nem miar mia – apenas se vai.

Construímos uma relação de respeito.

Legal seria se com as pessoas também fosse assim: se o cara saca, na primeira conversa, que você não tem a menor intenção de se atualizar sobre novidades automobilísticas ou crer que a razão para os males do mundo é a “falta de Deus no coração”, por que cargas d’água insiste?

Não dá pra entender.

Quem sabe seja aquela coisa: conversas, hoje, são cada vez mais difíceis, pois o que mais temos em nossas relações são monólogos desencontrados.

Eu falo A, você fala B e nenhum ouve o outro, já que o que pretendemos é falar e falar, não importa como e para quem.

A própria onda dos selfies é uma evidência disso: quem disse que os outros querem saber da sua lata de sono às sete da matina? Sua mãe, até pode ser – mas de resto, não há interesse nenhum.

Por isso é que hoje sinto certo respeito pelos gatos.

Claro que devem existir espécimes impertinentes, xaropes como um evangelizador peregrino e o Carpinejar falando de relacionamentos. Mas, ainda que seja generalização, a sensatez daquela gatinha branca mudou um pouco o nojo que eu trazia pelos seus colegas.

Pelo menos ela, quando nota meu “não”, sai de fininho e acabou.

Conosco é assim: cada macaco no seu galho.

Pena que os da minha espécie raramente possuem esse simancol instintivo.

O mundo seria um lugar melhor sem tanta gente espaçosa.