Horizonte

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Bondade não rima necessariamente com religiosidade. Sucesso não casa ipsis literis com bênção. Eticidade independe de crença e fé não é garantia de felicidade ou tristeza para ninguém. A fraternidade, pelo contrário, emergida da fatalidade da existência e de um senso de corresponsabilidade pelo hoje e o amanhã, não necessita de misticismos para subsistir, mesmo que esbarre no egoísmo de uma sociedade feita pelo e para o consumo. 

Resta, portanto, quebrar o ciclo de economização da vida. Mas como fazê-lo, dado o fato de que naturalizamos, por exemplo, questões absolutamente artificiais como a desigualdade social proveniente da própria lógica do sistema sócio/econômico no qual estamos imersos? Há que se encontrar brechas, lesões, linhas de ruptura em suas engrenagens, o que começa pela consciência de que “algo está errado” e pela certeza de que esse “errado” pode e deve mudar. Ou você considera justo que alguns nadem em dinheiro e outros não tenham nem como se alimentar?

Já foi o tempo em que o Estado se mostrava como indelével responsável pela mudança da coisa pública. A insatisfação com determinado cotidiano político centrado na apropriação do bem comum pelo bem financeiro de uma parcela mínima da população apenas cresce pelo mundo. Contudo, movimento por movimento e agitação por agitação corresponde à ebulição de hormônios: uma espécie de “adolescência democrática”.

Para chegarmos à maturidade, portanto, há que se reconhecer alguns pontos: 1) você nasceu e irá morrer; 2) o único local até o momento conhecido no Universo que pode abrigar vida é o seu planeta; 3) você é corresponsável pelo destino de todas as pessoas do presente e do futuro; 4) você não é apenas uma peça de uma imensa linha de montagem: você é humano, único, dotado de inteligência e criatividade e totalmente apto a mudar seu papel no cenário da vida, desde que admita que essa mudança sempre irá afetar de um ou outro modo a vida dos demais.

Consequentemente, a partir desse ideário, do individual ao coletivo, poderia ser traçada uma meta: objetivo que da solidão existencial e da quietude cósmica, reconheça corajosamente seu lugar e seu tempo e aponte vetores de transformação distantes de dogmatismos, mas afeitos às mudanças fundamentais para guiar a humanidade na direção de um futuro justo e fraterno.

Como isso inicia? Pela abertura ao diferente e pela confiança no improvável. Reconheça que você irá crescer se ouvir vozes difusas daquelas com as quais está acostumado. Confie que por mais que seja difícil e talvez inalcançável no transcorrer de uma vida humana, suas ações de hoje podem colaborar para a construção de uma nova sociedade amanhã. Crie grupos de debate, seja racional e gentil, passe longe de certezas absolutas e observe, dia após dia, a trama imensa feita de sangue e cultura na qual você está enrodilhado do nascimento à morte. Comece na sua escola, na sua universidade, com seus colegas de trabalho ou com a associação do seu bairro. Esqueça principalmente da perseverança que ainda deposita no poder instituído e erga novas estruturas de poder totalmente compartilhado mediante a comunicação igualitária entre os agentes envolvidos.

Construa, enfim, uma “ágora” pós-moderna esquina após esquina, bairro após bairro, cidade após cidade. Mas se não sabe como começar e acha que a tarefa é inútil ou talvez fadada ao fracasso, apenas pare, olhe-se fixamente no espelho, sinta sua respiração, sua pulsação e perceba que esse é você: alguém igual a todos os seres humanos do mundo, com a pele tatuada por passados e a mente fervilhando por futuros. Certamente dessa epifania, a qual não posso garantir que você aceite, nascerá o seguinte resultado: você não é especial do ponto de vista cósmico, sob o olhar do todo, mas suas ações, quando dimensionadas em um âmbito coletivo, é que direcionarão o que a humanidade considerará como “civilização” nos próximos séculos.

Mesmo que você tenha considerado tudo isso deveras “sonhador”, nunca esqueça: houve um tempo em que a escuridão da noite era a única possibilidade quando as estrelas despontavam no horizonte.