Ilegitimidade

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Não deveriam sequer existir as propostas que protagonizam as profundas reformas que o Governo Temer pretende colocar em curso no Brasil. O que o Governo e sua equipe deveriam fazer, caso quisessem minimizar o impacto da gritante ilegitimidade política do seu plano de governo e frear o avanço da “narrativa do Golpe” palpável nas ruas e na imprensa estrangeira, é administrar o Estado da forma mais contida possível até o final de 2018, para que, apenas em sede de eleições, a população decidisse nas urnas se de fato quer mudanças tão drásticas quanto ao investimento em educação e saúde e no que diz respeito ao direito previdenciário e trabalhista – sem contar o despautério autoritário que consiste em mexer na estrutura do Ensino Médio via medida provisória. 
Colocar em prática alterações que pretendem modificar as regras para aposentadoria, criando uma idade mínima universal de 65 anos para homens e mulheres, com alguns poucos respingos de transição e certas benesses a determinadas profissões, bem como defender a flexibilização das regras trabalhistas, proporcionando, ao menos em tese, um maior poder aos sindicatos e aos acordos celebrados com as empresas em prol das categorias representadas, não é algo que se deve fazer sem discussão pública profunda, racional, demorada, democrática e abrangente – o que, claramente, não acontecerá com esse clima que vivemos em 2016.
Mais ainda, pretender o congelamento dos investimentos estatais em educação e saúde pelos próximos 20 anos, como exposto pela PEC 241/2016, utilizando-se da justificativa de que o Estado não pode mais arcar com todos os compromissos constitucionais do SUS, por exemplo, significa, basicamente, em conjunto com as reformas previdenciária e trabalhista, um desmonte do pouco Estado Social que temos – que ficará ainda mais depredado se pensarmos que há uma sinalização política clara na direção da privatização de diversas empresas estatais, sem que se deixem evidentes quais serão as benesses que a população terá com essas transformações.
A sociedade mudou, obviamente – e não descarto a hipótese da importância de alterações no âmbito dos direitos sociais. Mas proceder com tais reformas do modo como se pretende e nas circunstâncias atualmente vivenciadas, pode significar absolutamente tudo, menos respeito à soberania popular – a qual não aprovou tais alterações quando das eleições de 2014. Se o Governo Temer quiser se aproveitar da massa que o apoia em sua tomada de poder para promover seus “ajustes”, que o faça – mas que não se esqueça que existe uma outra parcela imensa da população que não enxerga legitimidade alguma no seu plano (e que vai resistir em todos os fronts possíveis diante de quaisquer prejuízos que possa vislumbrar).
O que me pergunto, porém, é o seguinte: será que a resistência será verdadeiramente forte ou será que o “brasileiro médio”, essa figura folclórica que povoa os telejornais, somente queria o PT fora do poder e ponto final, pouco importando as consequências que surgissem do “novo cenário”? Será que as avenidas e praças serão tomadas, será que a imprensa demonstrará informações fidedignas ou será que o povaréu continuará admirado com a imagem angelical de Marcela Temer em modelitos anos 50 falando pelo bem e pela felicidade das crianças? Será que os 84% de reprovação do Governo Temer terão algum efeito prático ou será que a maioria engolirá tudo o que vier em seco, satisfeita em sua fome de punição em virtude de algumas operações da PF e certas ações da Lava Jato somadas a um “golpe parlamentar” travestido de impeachment? 
Não é por pessimismo, mas por excessivo realismo que digo e repito há anos: o fundo do poço é só um alçapão para um poço ainda mais fundo – mesmo que eu queira, com franqueza e sinceridade, acreditar que essa afirmação não passe de uma frase de efeito. 
Veremos.