Lado B/Lado A

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Lado B

O clientelismo é assim: o Doutor compra o apoio do Zé que, por sua vez, torna-se protegido do Doutor, fazendo com que o Zé apenas perpetue, em suas palavras e atos, o bom-mocismo do Doutor. Já o coronelismo, embora bem parecido, é um pouco diferente: se o Doutor vê que o Zé não tem jeito, ameaça o Zé caso não ganhe apoio, mas se o Doutor vê que é fácil dobrar o Zé, dá alguma coisinha pro dito ficar faceiro e assim conseguir seu apoio.

O patrimonialismo, por outro lado, que parece uma consequência tanto do clientelismo quanto do coronelismo, funciona dessa forma: o Doutor, que conseguiu alguma posição de destaque por conta do Zé, quer seu protegido, seu ameaçado ou seu bichinho faceiro, acha que seu cargo é vitalício, “cosa nostra”, e que, levando em conta que o Zé não fede nem cheira, pouco importa se sua cadeira no gabinete for uma extensão da sua poltrona de tomar ceva no final de semana.

Agora vamos às conclusões:

1ª) Se você concorda com qualquer uma dessas práticas, não tem moral para reivindicar absolutamente nada em se tratando da administração pública municipal, estadual e federal.

2ª) Se você é cúmplice de qualquer uma dessas práticas, você certamente é o tipo de pessoa que ao cruzar por um sujeito morrendo de fome, desvia o olhar porque isso não interessa e você, afinal das contas, comprou um celular novo.

3ª) Se você percebe nitidamente tais práticas no seu cotidiano, possui provas desses joguetes e mesmo assim se aquieta no seu canto, botando o rabo entre as pernas, você, mesmo indiretamente, está auxiliando na manutenção desse sistema.

4ª) Por fim, se você tem o mínimo senso de fraternidade, de irmandade, de consideração para com sua cidade, seu estado ou seu país, é totalmente inconcebível que você continue feito um morto-vivo que somente come, trabalha e dorme e em nada contribui para a transformação desse cenário.

 

Lado A

Entendo que em política o realismo das relações soterra por vezes as ideologias existentes tendo em vista os objetivos almejados. Trocando em miúdos: para chegar ao poder, alianças que jamais ocorreriam em “tempos normais” acabam acontecendo.

É o que se vê no Maranhão diante da união entre PCdoB e PSDB na corrida pelo governo do estado, considerando-se que o PSB igualmente apoiará o PCdoB. Qual a implicação? Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), adversários no plano federal, apoiam o PCdoB no plano estadual, unidos.

Claro que isso, em razão da frente que se faz ao PMDB, partido da situação que provavelmente será apoiado pelo PT, é compreensível.

De qualquer forma, sempre acharei estranha essa disparidade de coligações partidárias que se esfacela em três esferas: municipal, estadual e federal, já que quando das eleições municipais em relação ao governo estadual o mesmo fenômeno é verificado.

A constatação proveniente desses fatos chancela a clássica máxima de Maquiavel, conhecida por todos: “em política, os fins justificam os meios”.

Trata-se de algo bom, mau, desprezível ou excelente? Nenhuma das alternativas. O que se percebe, tão-somente, é que assim como nas relações profissionais, por exemplo, em certos momentos alianças “antinaturais” são necessárias para que certos objetivos sejam alcançados.

No frigir dos ovos e no sentido moral e ético, tudo se justificará ou não pela qualidade do projeto e da gestão postas em prática quando do alcance da meta.
“Alea jacta est”, como disse Júlio César.