“Late mais alto que daqui eu não te escuto”

0
131

Valeska Popozuda é um Napoleão de saias abrasileirado e funkeiro.

Comprovação disso é o verso: “Desejo a todas inimigas vida longa / Pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória / Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba / Aqui dois papos não se cria e nem faz história”.
Fonte? O clássico contemporâneo: “Beijinho no ombro”.

Então responda: qual o problema de utilizar essa canção em uma prova de filosofia, conforme se vêm alardeando pela internet na última semana?

Se vivemos um tempo no qual a imbecilidade é vista como seriedade (vide Rachel Sheherazade e Jair Bolsonaro) e a seriedade é vista como imbecilidade (vejam-se as propostas de Jean Wyllys e o fato de Antônio Abujamra ser menos conhecido que Jô Soares), a única forma de romper com amarras tão fortes e plenas de completo besteirol é o escracho.

Tal palavra, segundo me informa o Google, significa “aquilo que é dito sem pudor, sem crivo de racionalização”.

Ora 1: como o “pudor” poderá ter contornos suficientes para descrever essa época que confunde pregas cerebrais com pregais intestinais?

Ora 2: como “o crivo de racionalização” (ou seja: aquele anjinho que diz ao seu ouvido “não fala isso, cara!”) poderá tracejar a revolta e a angústia reprimida que todos carregamos na garganta e não temos coragem de gritar àqueles que nos enchem o saco?

A resposta é nítida – e até mesmo a razão do povo sair quebrando tudo na rua nos últimos meses mundo afora.

Por isso repito o que já escrevi há alguns anos: não precisamos de aforismos (pensamentos filosóficos sincopados, em tradução chula e brega) – precisamos de desaforismos, já que apenas a lógica do desaforo pode quebrar a situação degradante que todos os dias assola 98% dos habitantes desse planetinha (roteiro simples: trabalho, casa, casa, trabalho).

O que o professor de filosofia do Distrito Federal fez ao posicionar uma questão da prova designando a Valeska como “grande pensadora” foi justamente isso: expor as vísceras da nossa ignorância – a sinceridade tosca de um povo que clama educação mas julga que “o trabalho liberta” (qual o letreiro dos portões de Auschwitz).

Pra finalizar: qual a relação disso tudo com Napoleão?

Claríssima: em seus comentários ao soberbo “O Príncipe” de Maquiavel, quando o autor florentino aduz, em certo trecho, que a união do monarca com a Igreja auxilia na conquista da sua legitimidade, o Imperador baixinho afirma: “Não necessitarei deles para obter qualquer vantagem!”.

Diga-me: não é basicamente recado idêntico ao de Valeska (“Late mais alto que daqui eu não te escuto”)?

Feitas as aproximações, portanto – e aos puristas, aqueles que louvam uma arte virgem, uma filosofia frígida e um pensamento decrépito, breve chamada: permaneçam em suas covas imersas em descontextualização, recheadas de epitáfios delirantes e birutas com o “golpe comunista” no Brasil.
É só.