“Liberais”, das duas, uma e teocracia

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“Liberais”
O cara fala que “quer menos Estado” e se diz “defensor das liberdades individuais”, mas prega pena de morte e trabalhos forçados, é contra o casamento homoafetivo, contra o movimento feminista, contra a legalização das drogas e acha ruim quando um ator recusa um papel de uma figura da moda – sem contar que discursa pela aproximação da religião com a política. 
Nome do transtorno? “Dupla personalidade ideológica”. 
Daqui uns dias, esse distúrbio entra para o Cadastro Internacional de Doenças.

Das duas, uma
Todos são contra a corrupção. Até o corrupto é contra a corrupção se a corrupção o prejudica. Todos “são pelo seu país”. Até aquele que não se interessa por política se torna um patriota em momentos de crise. Portanto, ser contra a corrupção e ser a favor do seu país não significa muita coisa: quer dizer apenas que a pessoa entende minimamente alguns padrões sociais seculares. 
O problema está no que se faz para combater a corrupção e no que se faz para defender o seu país, pois se estas ações não corresponderem a um Estado de Direito baseado nos direitos humanos e na democracia, sua concretização pode ser qualquer coisa – menos defensável. Em se tratando dessa pauta básica, não cabe imparcialidade. Os direitos humanos, por exemplo, não pertencem à esquerda ou à direita – e quem pensa que pertencem, não possui a menor noção do que são direitos humanos. 
Sabe o direito ao voto? É um direito humano. Sabe o direito à propriedade? É um direito humano. Sabe o direito à saúde e à educação? É um direito humano. Sabe o direito a ser julgado por um tribunal imparcial? É um direito humano. Sabe o direito à preservação da sua integridade física e psíquica e o direito à liberdade de expressão? São direitos humanos. 
Assim, partindo dessas noções fundamentais, das duas, uma: ou quem diz que é contra os direitos humanos não sabe o que está falando, ou é simplesmente um fascista que baseia sua construção mental em ideais de pureza, acreditando que uns são mais humanos que outros. 
Outra explicação é improvável – e quero acreditar que a maior parte das pessoas não é má ao ponto de querer a aniquilação do seu semelhante, mas apenas desinformada. A questão que fica é: será que a desinformação e a falta de instrução não são justamente a origem dos discursos de ódio que cotidianamente presenciamos, sejam eles direcionados ao lado que for?
 
Teocracia
A Comissão da Câmara dos Deputados que analisará os projetos do “Escola sem Partido”, será coordenada por deputados integrantes da Bancada Evangélica. O colegiado será presidido por Marcos Rogério (DEM-RO) e terá Flavinho (PSB-SP) como relator. Enquanto Marcos Rogério é defensor do PL 5069/2013, que dificulta a realização de aborto em casos de estupro, Flavinho apoiou uma proposta para revogar a permissão do uso de nome social para travestis e transexuais em órgãos da administração pública. Dentre as pautas que serão discutidas pela Comissão, existe a proposta do deputado Rogério Marinho (PSDB-RN), que prevê detenção para docentes que tentarem “doutrinar” os alunos. 
Conclusões? 
Duas: 1) o que está ruim, sempre pode piorar; 2) o fantasma da teocracia e/ou da teodemocracia jamais desaparece.