Like a “X-Files”

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Sinto que após o afã de ódio cego pré e pós-eleições, as coisas acalmaram um pouco. Talvez as pessoas tenham simplesmente se acostumado e verificado que seus gritos pueris, no mais das vezes, são apenas gritos pueris. Entretanto, vez ou outra, vagando entre blogs, perfis do Facebook e colunas de sites e mais sites, isso para não falar em jornais e revistas devidamente impressos, ainda deparo com visões absolutamente infantis acerca da eleição de Dilma Rousseff, por exemplo.

São seres que bradam aos quatro ventos que estamos imersos em uma ditadura comunista ou que o Brasil passa por um processo de “venezuelização”, se é que existe essa palavra. Alguns, inclusive, rogam pelas Forças Armadas e pedem, ao custo que for, a “intervenção militar” – ou, em dados comentários que ainda se querem bons-moços, a “intervenção militar constitucional”. Quando não é isso, fala-se em impeachment, fraude nas urnas eletrônicas ou consolidação do “bolsismo” em terraebrasilis. Nessa questão do “bolsismo”, aliás, os comentaristas, portadores de no máximo dois neurônios, pautam suas linhas nos traços do “us and them” – isto é: nós e eles.

O “nós”, in casu, é representado pela parcela trabalhadora, contribuinte, bem nutrida e responsável pelo “desenvolvimento” (sic ad infinitum) do Brasil. O “eles”, por outro lado, é tachado como vagabundo, burro, do tipo que só sabe fazer filhos, arrochar no forró e viver à custa do Estado. Cria-se, enfim, uma perversão do conceito de xenofobia, que diz da aversão ao estrangeiro. A aversão brazuca, pelo contrário, não é direcionada àqueles que não portam a nacionalidade brasileira, mas aos brasileiros que, segundo a visão de alguns “indignados”, não fazem jus ao título de brasileiros.

Trata-se do mesmo pessoal que apregoa que “direitos humanos são para humanos direitos”. Para ser “brasileiro”, assim como para ser “humano direito”, na visão dessa gente, é necessário o preenchimento de certos requisitos morais – os quais, imagino, devem deter algum aporte no consumo frenético de iogurte grego ou em copos e mais copos de Ades no café da manhã. Quem não se encaixa nesse molde, seja por iniciativa própria ou desatinos do destino, merece, na melhor das hipóteses, o expurgo, o exílio, o banimento – o “outside the wall”.

Mas será que essa gente tem razão? Não vou nem me dar ao trabalho de debater esse assunto – como falei ao início, gritos pueris serão sempre gritos pueris, impulsionados por hormônios em ebulição, desfaçatez de caráter ou simples burrice. Discursos tacanhos e baixos, com verves fundamentalistas, não merecem atenção – seria como jogar xadrez com um pombo: enquanto você movimenta as peças com alguma racionalidade, o passarinho derruba o rei, o peão e emporcalha o tabuleiro todo. O que merecem tais discursos, então? Duas coisas: repúdio total e análise psiquiátrica.

Há algum tempo, confesso, minha paciência esgotou. Não me venham, portanto, com arrazoados plenos de bobajolumbiguista que simplesmente não vai colar. Por isso e mais um tanto bem grande que nem me dá vontade de expor, digo e repito o que falei acima para todo e qualquer indivíduo que me aparecer com palavreados do gênero sobre o qual comentei. A vida é muito curta para ficarmos naquela vibe de conversa de comadres em plano nacional, criando conspirações like a “X-Files” unicamente para o deleite da nossa paranoia.

Não é o Brasil que precisa mudar, mas a cabeça de uma boa parcela da sua população.