Máquinas de xerox

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Esses dias ouvi um cara falando que odiava comunistas. Fiquei sem jeito na hora. Será que o sujeito conhecia muitos comunistas? Teria sido violentado por uma foice e um martelo? Não faço ideia, mas aquilo soou estranho ao meu sentir. A palavra “ódio” sempre me pareceu demasiado forte: me lembra sangue, tripas e pupilas alucinadas de fanáticos religiosos – e eu sabia que o cidadão que posicionou esse termo em sua frase, provavelmente não se enquadrava como espécime dessa fauna. Mas então por que tanta raiva no coração? Me pus a matutar.
Não é de hoje que digo que estamos perdendo a capacidade de dialogar. O que mais percebo, em se tratando das vozes do espaço público, são monólogos desencontrados, como se qualquer conversa fosse uma competição. Eu digo A, você retruca B, eu replico C, você apela D: nessa ciranda, varamos a noite tentando convencer o outro de que estamos certos – e não ouvimos basicamente nada do que nosso interlocutor falou porque acreditamos, cegos e surdos, que nosso lado é a única trincheira possível. Qual o desfecho? Voltamos para casa abobalhados, com a convicção de que a nossa ideologia, seja ela qual for, apenas se reforçou.
Como pode uma sociedade se desenvolver em linha ascendente se está assentada nesses padrões? Poderá haver democracia se não estamos dispostos a mudar de ideia – se, diante de toda e qualquer letra que destoe da nossa liturgia, somente nos defendemos e nos retraímos, escondendo nossa fragilidade dentro de uma casca? Não consigo entender. Não é que eu defenda que devamos ter a cabeça aberta para tudo – longe disso. Só acho que o caminho do diálogo verdadeiro, pautado na troca de argumentações racionalmente formuladas, é omelhor (senão o único) caminho em se tratando da construção do pensamento.
Mas entendo essa coisa que contamina o povaréu. Sabem do que se trata? Ignorância. Um estudo conduzido pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, entrevistando 2002 pessoas entre 15 e 64 anos em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país, concluiu que só 8% dos brasileiros em idade de trabalhar são plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números – aptos para compreender e elaborar textos de diferentes tipos, opinar sobre o posicionamento ou o estilo de um autor, bem como interpretar gráficos e tendências numéricas básicas.
Contando os limões, isso quer dizer que dos 200,4 milhões de pessoas do Brasil, em torno de 16 milhões possuem essas qualidades fundamentais – as quais deveriam, em tese, ser encontradas em qualquer aluno que concluiu o Ensino Médio. Trata-seda decretação de falência da educação brasileira? Penso que o problema vai além disso. O que esses dados demonstram, em tempos de acesso fácil a todo gênero informações e a toda babel que se encontra ao alcance dos dedos na tela do celular, é uma preguiça ferrenha – a qual se soma a problemas da ordem social e econômica, os quais, de modo invariável, influenciam na formação cultural de todo e qualquer cidadão.
Esse quadro é perigosíssimo: constitui porta aberta para que toda sorte de absurdidades seja tatuada no cérebro. Ou vocês acham que certas figurinhas políticas que estão no álbum do Parlamento e não se cansam de cuspir fascismo e seduzir multidões vieram do espaço sideral? O buraco é mais embaixo. A sordidez reflexiva, do tipo que adora apontar culpados para tudo e mais um pouco, elegendo bodes expiatórios para problemas muito, mas muito mais complexos, cada vez mais toma lugar no cenário político nacional – de forma que o Congresso, por exemplo, é o reflexo perfeito desse movimento. Mas também devemos ter a ciência de que não somos vanguardistas nesse ranking ao contrário – afinal, se assim fosse, não teríamos seres deploráveis como Donald Trump na corrida presidencial norte-americana.
Você pode não gostar de comunistas, zoroastristas, capitalistas ou urantistas: não vejo problema algum. Mas entre um “não gosto” e um “odeio”, há toda uma sorte de adjetivos que não são lá muito palatáveis, principalmente se materializados em um murro ou algo pior. Se hoje nos sentimos autorizados a dizer o que bem entendemos, igualmente temos que conscientizar o fato de que somos responsáveis por tudo aquilo que falamos. Além disso, generalizar nunca é a melhor rota, seja para um lado ou para o outro – e replicar opiniões como máquinas de xerox é um troço pra lá de bizarro. A gente precisa de menos ódio no peito, menos olhos esbugalhadosnos palanques e menos bocas espumosas nos teclados, porque isso, meus caros, é um baita atestado de ignorância e preguiça.