Meus votos, “communication breakdown” e ostentação

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Meus votos

Que 2014 seja um ano de “mas” e não “mais”, de “saudade” e não “saldade”, de “contigo” e não “com tigo”, de “há cerca” e não “a cerca”!

Que 2014 seja um ano de concordâncias frasais, de pontuações acertadas e de sujeitos que escrevem “herança” e não “erança”!

Que 2014, enfim, seja um ano no qual todos saibam narrar seu treino diário ou escrever seu tratado metafísico com um mínimo bom senso gramatical e lógico!

De resto, dá-se um jeito!

Mas nunca esqueçam: “mim” não conjuga verbo!

 

“Communication breakdown”

Essa coisa de viver e se comunicar é que nem aquela brincadeira do telefone mudo pela qual todos passamos na infância: você diz X, sujeito entende Y, repassa W e a pessoa ouve Z.

Na maior parte das vezes, a causa desse imbróglio é “communication breakdown”, para lembrar do saudoso Led Zeppelin.

Em outras, entretanto, a razão para tais distorções é pura e completa falta de caráter.

Talvez essa seja uma das origens da fofoca: uma mistura de mau-caratismo com déficit de atenção e principalmente falta de ter mais o que fazer.

Comportamento típico de gente pequena, com sérios problemas de realização pessoal – e quiçá sexual.

 

Ostentação

De boa, diz aqui pro tio Eduardo: qual é a moral dos gêneros musicais sertanejo + funk + arrocha + rap seguidos do termo “ostentação”?

Impressiona esse troço. Merecia estudo.

Daqui uns dias, surgirá o “gospel ostentação”. Tipo: camarada se achando a última bolacha do pacote porque deu trocentas centenas de pilas em dízimo.

É pra acabar com o cheque do leite. A progressão geométrica é nada pra medir a endêmica imbecilização que se propaga mundo afora feito câncer galopante, como falo há anos.

Não adianta: está em toda a parte – e persegue você. Basta ligar a tevê, zapear as estações de rádio no carro, cruzar pela calçada e ouvir um retardado tascando música no celular sem fones de ouvido.

Não tem jeito. Qual um apocalipse zumbi, o troço é global. Todos dançam, requebram, assistem. Todos postam, zoam, pegam.

Triste, tristérrimo – mais ainda quando se percebe que isso diz muito sobre nós e principalmente sobre nossa época: imersão em uma tristeza sem precedentes da qual apenas parecemos ter algum alívio quando em uma orgia à Calígula.

Outra: por que essas duplas que misturam rock + sertanejo + axé sempre usam a palavra “mulherada” como quem fala de um bando de otárias que só presta pra beber e transar? Não dá, não dá – e não se trata de preconceito estético ou musical: trata-se de verificar um sintoma entranhado em uma sociedade plena de potencialidades mas refém do efêmero, do fugaz, daquilo que se desfaz quando passa a ressaca ou chega a velhice.

Negócio é seguir a lógica do avestruz: enfiar a cabeça no chão e ficar na tranquilidade.

Do contrário, cara se torna o sujeito mais chato do Universo.