Modus operandi gripal

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Estou gripado. Sinto-me um lixo, literalmente incapacitado de estabelecer conexões neurais que considere válidas. Parece que o mundo, muito mais que a cabeça, me pesa nos ombros – e até respirar, esse ato instintivo, assemelha-se a algo afeito aos mais diversos óbices, já que dentre fungares fica difícil você deter alguma dignidade. Talvez, contudo, essas sensações sejam potencializadas pelo fato de me encontrar em uma parte do Brasil na qual jamais faz frio.

Convenhamos: gripe de inverno você até suporta, cruzando pelas plagas do vírus dentre chás e edredons. Mas gripe de verão é uma incongruência, um crime lógico difícil de engolir, vez que o calor não deveria trazer esse tipo de coisa para a sua carcaça:pura sabotagem da natureza.Com a televisão ligada na Globo News, como costumeiramente procedo pela manhã, procuro traçar algumas linhas em busca de qualquer coisa que se mostre minimamente interessante quando convertida em palavras.
Nessa vibe é que penso em falar da ridícula reforma política em curso na Câmara Federal – uma reforma em nada associada com os apelos populares que cobrem as ruas desde junho de 2013. Também cogito em dizer da insossa polêmica que tomou conta da internet na última semana em razão de uma transexual que fez certa performance artística da crucificação na Parada Gay em São Paulo – causando a ira de milhares de indivíduos e comprovando a fala de Umberto Eco: as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.

Na mesma esteira, cotejo a possibilidade de escrever sobre o escândalo de corrupção na FIFA ou sobre a triste constatação de que o Grêmio passará mais um ano sem qualquer título na algibeira – deixando nós, gremistas, imersos em um déjà vu que se repete há tempos. São muitas as possibilidades para dissertar, portanto. Porém, quando um espirro interrompe a teia cerebral que aos poucos eu poderia construir acerca de cada um desses temas, desisto por completo de seguir tais caminhos e me rendo ao Resfenol.

Passados trinta minutos, volto ao computador me sentindo um pouco melhor. A tela permanece parcialmente preenchida, com aquele espaço embranco que apenas quem escreve sabe se tratar de algo aterrador. Trata-se de uma cor que denuncia sua incompetência, como se, em letras garrafais, dissesse para você de forma repetitiva e robótica: L-O-S-E-R.

Entretanto, como sou um cara predominantemente paciente, pois do contrário, por exemplo, jamais poderia ser professor, agarro com unhas e dentes as teias da gripe e descubro que minhas palavras não irão muito longe dessas paragens. Lembro, assim, das gripes da infância, com minha mãe preocupada e as consultas ao pediatra, das gripes da adolescência, quando eu ficava fulo da vida por não poder aproveitar o final de semana em função da maldita – e também das gripes da fase adulta, as quais me puseram de cama e me impediram de trabalhar e estudar com alguma decência por diversas vezes.

Mas ao recordar disso, recordo também que dos males, esse é o menor: existe gente que gosta de Kaiser, existe gente que considera a Anitta uma cantora, existe gente que acredita em corrente viral de Facebook e até existe gente que no jantar do Dia dos Namorados, ficará grudado na tela do celular postando mensagens de amor para a pessoa que se encontra ali, bem na sua frente, ansiando por toques de pele e calor.

Realmente, diante desse quadro, não estou tão ruim – e dizer que me sinto um lixo é mera figura de linguagem, coisa exagerada como uma novela mexicana ou como um funk ostentação desses com clipe na MTV. Dessa forma é que, resignado ao calor e ao ventinho parceiro que entra da sacada, enquanto algum psicólogo canastrão fala de relacionamentos na televisão, aceito meu estado e ingresso no sábado com uma única certeza: quero que essa coisa de espirros, tosse e constipação passe logo – preciso voltar a ser o chato de sempre, não mais esse dengoso ser no qual me transmutei anteontem, mergulhado no modus operandi gripal.