Nacionalismo e segregacionismo

0
113

Nacionalismo
O nacionalismo representa a devoção à “nação”. “Nação”, por sua vez, é um conceito da ordem cultural e social, formado por traços identitários linguísticos, psicológicos, antropológicos e históricos que mantém determinada coletividade humana unida a partir desses referenciais. Trata-se de um dos termos mais imprecisos da Ciência Política, mas geralmente traz consigo uma ideia de “pureza originária” e uma “noção de unidade” – sendo que estes vetores, cabalmente, apontarão contra a diversidade e contra o caráter histórico dos usos e costumes, por exemplo.

O nacionalismo, assim, é uma espécie aguda de patriotismo e se reforça pela enumeração de inimigos externos e internos que seriam “contrários à nação” – e, portanto, devem ser “eliminados”, “expurgados” ou “expulsos”. Daí decorre o seu feitio perigoso do ponto de vista político e social, vez que, em nome da “preservação da nação”, encontra-se justificativa para qualquer ato. Além disso, todo fascismo possui raiz nacionalista – e apenas esse fato já diz da importância de se falar sobre o assunto em um momento de ressurgimento dos nacionalismos em nível global.

Segregacionismo
O segregacionismo nacionalista ganha impulso com a saída do Reino Unido da União Europeia. Some isso à ascensão política de Trump nos EUA e até mesmo ao surgimento de uma “nova direita” na América Latina, cujo estandarte atual é Macri, na Argentina, e você consegue visualizar um cenário sistêmico no qual a própria pretensão universalista dos direitos humanos perde força frente à enumeração de inimigos externos e internos, sob o argumento da segurança nacional ou econômica.

Paradoxalmente, uma das responsáveis por esse fenômeno aparenta ser a própria esquerda – que ao invés de renovar o seu discurso, atendendo aos apelos provindos da conjuntura internacional e dos desafios nacionais de cada país, permaneceu trancafiada em uma torre de marfim, vivendo mais de teoremas que de diagnósticos palpáveis e aparelhando as organizações estatais com uma ladainha burocrática e muitas vezes alicerçada em uma cleptocracia, sob o argumento maquiavélico clássico de que os fins justificam os meios.

Quando os Estados e os blocos regionais não conseguem materializar seus objetivos, enfim, o medo ganha espaço e se expande, proporcionando a eclosão de nacionalismos que podem ser sentidos até mesmo em determinado discurso político que vêm crescendo no Brasil, com matriz neoconservadora e reacionária. Trata-se de uma negação retrógrada ao que se procurou construir nos últimos setenta anos em termos de idealismo político, trocando-se essa centelha por outra de natureza realista/economicista no sentido de destruir outros mundos possíveis e abrir terreno ao velho e ao antigo – que sempre se mostram atraentes em momentos de crise, vez que aparecem como um porto seguro social.

No caso específico da União Europeia, um projeto civilizatório centenário começa a se esfacelar, provavelmente promovendo um redesenho da geopolítica da região nos próximos anos – a começar pela Escócia. Sintomas desse evento, que, além de tudo, evidenciou uma divisão do Reino Unido quanto ao questionamento do plebiscito, já que a “saída” venceu por uma margem de 4%, certamente serão sentidos em todo globo e em todos os projetos regionalistas que já existem ou estejam em vias de surgir.

Quando o nacionalismo e a evocação da unidade nacional são potencializados, o universalismo dos direitos humanos e até a perspectiva de uma cidadania cosmopolita se tornam cada vez mais distantes, o que ocorre, em alguma proporção, pela improbabilidade de materialização em curto prazo de uma cultura fraterna de união transnacional, fazendo com que a diferença se sobreponha à igualdade e atravanque possibilidades de diálogo efetivo. Líderes populistas e demagogos que se apropriam dessa improbabilidade para afirmar “um retorno à nação”, aliás, tendem a aparecer ainda mais – no caso brasileiro, Jair Bolsonaro (PSC-RJ) talvez seja um perfeito reflexo dessa tendência.

Dessa forma, é o momento de quem se interessa por essa temática intensificar os estudos e as reflexões, considerando-se que é impossível, ao menos agora, proceder com uma avaliação integral do que ocorre e delinear seguros prognósticos. O fundamental é que não nos trancafiemos na “ação pela ação”, relegando a reflexão a um segundo plano e agindo a partir de uma perspectiva anti-intelectualista – pois esse caminho leva apenas a um lugar: ao fascismo.