Negação, violência e justiça

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Somos quem negamos ser. Nossas resignações nos denunciam. O sujeito moralista ao extremo carrega uma imoralidade latente que dá impulso ao seu senso moral. O partido esquerdista radical estrutura seu pensamento por meio de uma construção sólida que não dá margem à liberdade distante dos seus alicerces. Quando falamos e sem querer posicionamos palavras indesejáveis durante a fala, essas palavras expressam o próprio sentido do discurso, ainda que contraditórias em relação àquilo que desejaríamos expressar.

Certos posicionamentos que hoje se querem jurídicos são bons exemplos disso. Em princípio o Direito existe para ordenar a sociedade, legitimado por um aparato estatal sob o primado da vontade popular. Essa vontade é expressa por meio do voto, o qual dá poder aos representantes do povo para analisar e aprovar leis que por sua vez irão ordenar a sociedade. Atualmente, vê-se um apelo popular imenso que clama por leis mais duras ou ao menos interpretações mais duras das leis vigentes quanto a determinados crimes. Vive-se na crença de que a pena extinguiria a possibilidade de um novo crime, de modo que assim a ordem social pudesse ser minimamente estabelecida.

Essa postura traz consigo o discurso da negação da violência. Quanto mais violência se vê, menos violência se quer. Daí surgem os partidários da criminalização de usuários de drogas e mesmo da legalização da pena de morte. Acontece que esse teor legal que brota desses apelos sociais, igualmente carrega a violência em suas linhas. Procura-se negar a violência pela violência, escondendo essa verdade por meio de um discurso que visa a paz. Quer-se curar o sintoma com o sintoma, não sendo buscada a origem da doença que ocasionou o sintoma.

A glamourização do Estado vista nos últimos anos em ações como a invasão do Complexo do Alemão é uma prova disso. Parece que a realidade que vimos jamais existiu e que somente veio à tona depois da invasão, por exemplo. Não se pode negar que o tráfico de drogas se encontra a tal ponto entranhado na realidade brasileira que ações como aquelas tomadas pela Polícia e pelas Forças Armadas se fazem necessárias mediante alguns contextos. Ocorre que analisar esse fenômeno de forma rasa implica em negar, por exemplo, que ele apenas se deu como maneira de publicizar a imagem de que o Brasil é um país preparado para receber eventos globais como as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Ou seja: trata-se a violência através da violência com o objetivo de propagar a paz ou ao menos a sensação de paz.

O maior problema existente na sociedade quando se trata da ilegalidade e dos seus sintomas sociais, é a tolerância que aos poucos desenvolvemos diante da ilegalidade. O jogo do bicho, embora contravenção penal, detém bancas de apostas por todos os lados. Beber e dirigir, igualmente ilegal, é prática tolerada universalmente. Há um nível de tolerância que prejudica a efetivação das pretensões de ordem social que desejamos, fazendo com que nossas percepções, atreladas a um senso comum orgiástico, fechem suas portas para uma análise profunda da realidade, a qual deveria se concentrar na origem do sintoma e não apenas no sintoma.

Freud fala que o sonho é um apanhado de significantes que esconde um significado. Isso implica em dizer que a origem dos sonhos se encontra embrenhada no teor complexo do próprio sonho. Interpretar os sonhos não está para buscar um significado místico para aquilo que sonhamos, mas se relaciona com a procura de uma verdade do sujeito, a qual é negada pelo sujeito e por isso se encontra coberta por tantas imagens aparentemente sem lógica, obedecendo às tramas de uma determinada estrutura que por fim revela aquele que sonha.

No panorama social atual, talvez devêssemos fazer o mesmo. Em meio a tanto alarde midiático acerca da violência, a qual nos propicia um gozo que não queremos aceitar e por isso queremos repreender com mais violência, o que explica o apelo social por leis duras ou ao menos interpretações restritas da própria legislação, existe um significado que está nos escapando. Esse significado recalcado esconde o fato de que gostamos de ver o caos social para perceber que nossas vidas, apesar de repletas de problemas, ainda detém a mínima paz. Talvez o reconhecimento dessa realidade propicie o nascimento de algum senso de justiça que não esteja travestido de vingança.

Certamente a angústia gerada por essa consciência não é pouca, manifestando-se no momento em que nos encontramos desprendidos de um significado que até então era certo e objetivo, mas agora se encontra envolto em mil questionamentos. Mas o reconhecimento do fato de sermos quem negamos ser, pode gerar uma revolução na própria percepção que temos da realidade, fazendo com que nossos pensamentos, antes de tirar conclusões precipitadas, saibam analisar o contexto no qual se deram para enfim atingir algum patamar confiável. O fator complicador de uma percepção que ande por esse caminho, está para o fato de que até mesmo a confiabilidade desse patamar será questionada com o tempo, denunciando a realidade irrevogável de que nossa única certeza é a dúvida. Mesmo assim, apenas por sobre as ruínas da certeza é que alguma justiça pode ser construída. Negar nossa condição é negar quem somos. Negar quem somos é afirmar aqueles que somos por meio da negação. Se apostarmos que quanto maior a negação maior a violência, não haverá espaço para soluções justas distante do reconhecimento dessa realidade.
Mas o que queremos, afinal?