Nonsense e inexistência

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Nonsense

As últimas semanas foram frutíferas em acontecimentos bizarros.

Dá pra citar três: 1) a ridícula “Marcha com Deus pela família e contra o comunismo”; 2) a crueldade inscrita no corpo de uma mulher arrastada pelas avenidas do Rio de Janeiro por um carro da Polícia Militar; 3) a estapafúrdia tentativa de Bolsonaro (PP-RJ) em realizar um discurso pró-ditadura na Câmara dos Deputados.

Somando tais notícias ao misterioso desaparecimento do voo MH370 da Malásia, bem como ao contexto de crise enfrentado pela Ucrânia diante da anexação da Criméia pela Rússia, pode-se averiguar que vivenciamos uma nítida incapacidade de compreender a contemporaneidade à luz dela mesma e, em um só tempo, temos uma dificuldade imensa em desatrelar nossa inteligência de concepções mofadas e preenchidas por um nonsense cujos sintomas geralmente trazem um caráter atroz.

Todo esse cenário me lembra Boaventura de Sousa Santos: “vivemos uma época em que o novo ainda não nasceu e o velho ainda não morreu”. Trata-se de um tempo assemelhado ao entardecer: não se sabe se é dia, não se sabe se é noite – o que se sabe é que a luz é pouca e que as coisas, as pessoas e o próprio mundo se encontram envoltos em uma leve penumbra que nos impede de verificar seu exato contorno e conteúdo.

Já é hora de fincarmos o pé no aqui e no agora, quer para o bem quer para o mal. Viver em redutos ilusórios plenos de engano e ignorância de forma alguma será rumo viável para as dificuldades que os próximos anos trarão. A compreensão é o prelúdio do respeito – e o respeito é a antessala da civilização. Afora isso, convém abdicarmos da imbecilização coletiva que por todos os lados persegue nossa inteligência, fazendo com que os neurônios, essas células recheadas de eletricidade que tramam relações infinitas em nossos cérebros, deixem de ter o feitio que possuem e passem a ser dignas habitantes das pregas dos nossos intestinos.

Inexistência

A vida não é boa nem má. A vida não é justa nem injusta. Se conceitos assim não existem para insetos, por que existiriam para você? A vida em si, tida como realidade biológica, é desprovida de significado – de sentido, denominador comum ou seja lá o que o valha. Em escala cósmica, a vida é um escândalo, visto que a maioria das variáveis aponta para a sua inocorrência.

Acontece que somos detentores da consciência da finitude, o que nos exige a atribuição de um significado para a existência tendo em vista a angústia proveniente dessa consciência. Normalmente buscamos esse significado na religião, na filosofia ou mesmo no amor das pessoas que nos são próximas.

Ainda assim, a angústia não cessa – e quando paramos e imaginamos que um dia simplesmente não mais existiremos, é inevitável um frio na espinha e uma certa dor por deixar de existir em algum local incerto do futuro.

Com o intuito de suportar e sobretudo aceitar essa situação, penso que o caminho primeiro é encarar nosso lugar de forma corajosa. De nada adianta negar nossa solidão no Universo e nosso fim inevitável. Partindo disso, talvez alguma ética fraterna e algum sentido minimamente aceitável possam brotar para amainar a miserável e incrível condição humana.

Afinal das contas, não é absolutamente surpreendente o fato de estarmos vivos?

Quem sabe isso baste.