O caminho do meio

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1.
Em termos políticos, penso que idealismo sem realismo é ilusão e sonho, mas realismo sem idealismo é conformação e inércia: é preciso, por isso, equilibrar ceticismo e esperança.
Sem o realismo, o idealismo não passa de utopia; sem o idealismo, o realismo não passa de distopia: nem tão céticos ao ponto de não visualizar qualquer possibilidade de mudança, nem tão esperançosos ao ponto de visualizar uma mudança completa.
O caminho do meio, equidistante do completo sonho e da total inércia, olhando para ambos a um só tempo, mas de acordo com as singularidades das circunstâncias, parece ser o rumo mais adequado caso queiramos alguma sensatez que passe longe de maniqueísmos, nacionalismos e autoritarismos.
Não se trata de isenção: trata-se de equilíbrio e negação de extremos para que se aproveite as contribuições de cada discurso sem renegá-los completamente e sem deixar que ditem sozinhos os rumos da sociedade.
Nem socialismo (e suas releituras) e nem liberalismo (e suas releituras), nem “tradição, família e propriedade” e nem “revolução do proletariado”, nem ortodoxia de esquerda e nem ortodoxia de direita.
Com o delineamento a partir do respeito aos direitos humanos e à democracia, da unidade na diversidade, esse parece ser um filtro adequado para refletir sobre política atualmente sem correr o risco da decaída em um totalitarismo da igualdade ou em um absolutismo da liberdade.
É difícil a construção de um pensamento nessa linha em um contexto de ânimos tumultuados e paixões raivosas?
Muito.
Mas tendo em vista algumas tendências contemporâneas do Brasil e do mundo, totalmente necessária em sua obviedade que serve de contraponto a ideologias com pretensões de pureza que sempre renascem em momentos de crise.

2.
Garantir as liberdades e os direitos fundamentais a todos, propiciar uma igualdade equitativa de oportunidades e promover a manutenção de desigualdades apenas para favorecer os mais desfavorecidos, são os pilares de uma sociedade justa para um grande “liberalista igualitário”, ou “liberal de esquerda”, como dizem alguns, chamado John Rawls.
Portanto, se alguém traz essas bandeiras, por mais críticas que tais princípios possam receber, não significa que esse alguém seja necessariamente vinculado a uma ideologia político-partidária X ou Y.
Traduzindo grosseiramente: não quer dizer que o sujeito seja do PT, do PSOL ou correlatos (e muito menos significa que o sujeito seja “um comunista”).
O mundo vai muito, mas muito além da polarização binária da pseudo-discussão política brasileira atual.

3.
Se você abrir demais sua cabeça, pode perder seu cérebro. Mas se você fechar demais sua cabeça, pode esquecer que possui um cérebro. “A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”, já dizia Paracelso.