O dispensável indispensável

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Quando comecei a lecionar, sempre levava na pasta “A ciência jurídica e seus dois maridos” do Warat. Não havia um motivo racional. Colocava o livro no meio dos meus troços porque me parecia uma espécie de amuleto – uma garantia de que faria um trabalho bem feito. Não sei se esse ato trazia algum efeito. Mas para minha mente e minha segurança, era algo bom. Certamente funcionava como um placebo ou um pé de coelho no espelho retrovisor. Mas não via nada de mal nisso.

Não lembro quando deixei de levar o livro para as minhas aulas. Acho que com o tempo simplesmente me acostumei. O fato é que as coisas, com o correr dos dias, transformam-se em rotina e acabam perdendo aquele ar de perigo. Quase tudo anda nessa esteira. Pense, por exemplo, em dirigir. No início, você acha o máximo e se sente pra lá de poderoso. Passam os meses e aquilo se torna tão banal e tão corriqueiro quanto saber que o prefeito da sua cidade não trabalha como deveria.

Quero dizer com isso que tudo se encontra absolutamente perdido? Por certo que não. Sempre há algo novo para se descobrir – e oque quero falar é que esses pequenos rituais, como carregar um livro na pasta unicamente porque ele traz algo bom para você, são bonitos. Sorrir para algo estranho é necessário, imaginar desenhos nas nuvens é primordial – e se desfazer do bom humor é uma sentença de morte.

Talvez alguém considere essa visão excessivamente romântica. Em um mundo tecnocrata, dominado pelo discurso do lucro, sonhar e se importar com ações aparentemente banais é infantilidade. Mas se não for desse jeito, o que restará da nossa humanidade? Certamente, para os homens das cavernas, a sobrevivência era primordial – o que não os impediade pintar paredes para de alguma maneira transmitir em imagens um retrato da sua vida. Esse é o papel da arte: dar cor e sabor para a existência – sendo que sem essa cor e esse sabor, aquilo de você ligar uma música e tudo ao seu redor se transformar abruptamente, não vejo muitas razões para enfrentar o que todos os dias enfrentamos.

Mas tenho sentido a falta dessa percepção na maioria das pessoas. Todos estão tão absortos em seus objetivos, em seu sustento, em seu “se dar bem”, que esquecem daquilo que lhes proporciona um verdadeiro bem estar. Correr para emagrecer é diferente de correr porque gostamos de correr. Assistir a um filme ou ler um livro para parecer culto, é diferente de fazer isso pelo prazer do fazer. Não precisamos de objetivos práticos a todo momento: se formos assim, sempre em busca de algum poder que escorre por nossos dedos no momento em que julgamos tocá-lo, a frustração se avizinhará rapidamente das nossas portas.

Por isso é que, às vezes, aquilo que se mostra aparentemente dispensável na verdade é indispensável. É fácil perceber. Veja: a) dizem por aí que o sistema jurídico e político está ruindoe que nada irá mudar; b) ao votar, os eleitores sabem que estão apenas cumprindo uma obrigação e não trazem qualquer esperança por mudança caso seu candidato seja eleito; c) ao ingressar com uma ação, os litigantes tem a consciência de que aquele processo irá demorar infinitamente e que irão se estressar para tocar o barco; d) o que esses indivíduos fazem?; e) apenas falam para si que as coisas são uma porcaria, que tudo é podre e que nada, em hipótese alguma, irá se modificar.

A pergunta é: no que isso ajuda? No que a resignação e a inércia nos auxiliam? A resposta é clara: em nada – e por esse motivo, por essa ausência de imaginação, que tudo permanece exatamente como está. O pior é que quando aparece alguém com uma ideia fora da casa, é rechaçado pelo senso comum pela razão de ousar pensar e sobretudo imaginar uma solução que não se encaixe nos padrões coletivamente estabelecidos. Aí mora o risco: quando, diante de uma situação emergencial, que precisa de uma resposta diferente daquelas que já foram dadas, tomamos a mesma atitude de sempre, o resultado será a replicação em cadeia de um algarismo que nos levará exatamente ao mesmo lugar do qual partimos.

Por essas e outras é que precisamos de pessoas mais ousadas. Não fosse a ousadia, o ser humano não teria se lançado ao mar para desbravar novos continentes, sequer teria chegado à Lua e continuaríamos, feito bobos, achando que o mundo é plano. Essa ousadia aparece com a possibilidade do sonho, do delírio, do deixar-se levar pela maré das ideias – ainda que elas, em alguns momentos, possam soar tão banais e desprovidas de sentido quanto levar um livro para o trabalho e pensar que isso trará algum resultado positivo para o que você pretende. Afinal, ninguém pode provar que não é “A ciência jurídica e seus dois maridos” que me faz persistir nessa coisa estranha que é ser professor há oito anos.