O Efeito Gangorra

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João era um menino de uma perna só. Nascera assim. Quando o médico percebeu que nem o toco da perna ele tinha, falou pra mãe:

– Olha, vai ser complicado ele viver desse jeito…

Ela, meio arrebentada da barriga pra baixo, olhou pro médico e resmungou:

– De qualquer modo é complicado.

Quando completou sete anos, João ganhou uma perna de pau.

Presente do pai. Era uma perna pobre. Mas era alguma coisa. Antes da perna de pau, João se arrastava que nem cobra. Com a cara colada no chão, via coisas que outras pessoas jamais enxergariam. Havia tardes de janeiro em que gostava de analisar os vincos entre as lajotas pra comparar se os da direita eram simétricos aos da esquerda. Esquecia que o sol brilhava e que na praça em frente crianças iam pra cima e pra baixo na gangorra que o Vereador Nelson instalara no inverno passado.

Quando João ganhou a perna de pau, o pai lhe disse:

– Filho: essa perna sou eu que estou te dando, mas tu tens que agradecer pro Vereador Nelson que mora na Zona Leste. Por isso amanhã vamos lá. E vamos à pé, só pra provar pro

Vereador que essa perna agora te faz uma criança normal.

O Vereador Nelson estava sentando na varanda com um charuto gordo no canto da boca.

– Agora és um menino normal!

– Sim, doutor! E graças ao senhor agora ele é um menino normal!

– Graças a mim não, meu caro! Quem fez isso foi Deus!

João tentou sorrir. Mas não conseguiu. Culpa dos cabelos pretos lambidos. Mas como sentiu o pai lhe dar um cutucão nas costas, forçou um “obrigado” e um riso em colchete pra não ouvir desaforos.

Naquela noite, quando todos foram dormir e João estava só no quarto, sem a perna de pau que tirara pra conseguir pegar no sono, decidiu se arrastar até a porta e abri-la devagarzinho. Era uma noite clara. A gangorra permanecia parada em suas tintas foscas à luz amarela dos postes. João sentiu vontade de ir até lá. Mas não com a perna de pau. Queria fazer o caminho das cobras.

A calçada estava gelada e a rua quente. Ele nunca reclamara dessas sensações. Gostava de perceber que se as pessoas comuns andavam com duas pernas, ele andava com o corpo todo. Sabia que mesmo sem uma perna poderia subir em uma das pontas da gangorra. Mas certamente ficaria no chão e mais nada. Teria de haver mais alguém para o Efeito Gangorra se concretizar. Como não havia ninguém, notou a falta de sentido da sua jornada e com algum pesar se arrastou pra casa.

Quando atravessava a rua, rosto manchado de terra e grama, uma caminhonete atropelou João. Certamente o motorista pensou que era um cachorro. Não fez questão de parar. Mas ele atropelara João, o qual, antes de morrer, olhou uma última vez para a gangorra e lembrou das palavras do Vereador Nelson:

– Graças a mim não, meu caro! Quem fez isso foi Deus!

Encontraram o corpo de João pelas sete da manhã. O pai lamentou o fato de não ter chaveado a porta. A mãe disse que aquilo era muito complicado. O Vereador Nelson pronunciou um extenso discurso que ninguém ouviu pela forte chuva que caia no zinco da funerária. O enterro de João foi de tardezinha e todos esqueceram da sua vida de sete anos.

Permanece só a gangorra meio capenga e podre. Talvez esteja iluminada por esse entardecer acinzentado do dia trinta e um de julho. Se em quarenta e oito horas apenas uma pessoa subir em uma das suas extremidades, nada acontecerá. Ninguém brinca sozinho.

O Efeito Gangorra exige companhia.

P.S.: Nas próximas quatro semanas, enquanto me organizo no Maranhão, enviarei para o Jornal das Missões alguns pequenos contos. No total, a começar por esta, pretendo publicar cinco estórias escritas em momentos diferentes da minha vida. Obviamente se tratam de textos que destoam da linha discursiva/argumentativa seguida durante esse um ano de coluna. Entretanto, peço que meus eventuais leitores encarem isso como uma espécie de hiato e/ou férias em razão da profunda mudança que decidi operar na minha existência. À parte essa pausa e na medida do possível, continuo com os meus pitacos diários no Facebook.