O escândalo da vida

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Não sou religioso e não acredito na existência de quaisquer divindades. Mas não sou ateu. Pelo contrário, sou agnóstico. Conservo ceticismo quanto a tudo que não tenha explicação científica e seja alvo de especulação espiritualista ou metafísica. Frente a um Universo complexo e repleto de questões aparentemente insondáveis, mantenho a postura agnóstica por puro e absoluto respeito. Respostas prontas não me saciam, clausuras explicativas tampouco. Tudo isso me parece caridoso, bonito, mas ainda assim não mata minha sede. Não que traga prepotência no ouvir. Não que negue posições diversas daquelas que alimento. Simplesmente não consigo acreditar que haja algo de especial no planeta Terra e nos seres humanos afora o fato de trazerem consigo o escândalo da vida.

“Escândalo da vida?”, perguntará alguém. Explico. A idade estimada do Universo é de 13,73 bilhões de anos. Seu diâmetro, 93 bilhões de anos-luz – ou 8,80 x 1026 metros. No Universo observável, existem provavelmente 170 bilhões de galáxias, sendo que o planeta Terra se encontra na Via-Láctea, galáxia que conta com cerca de 200 bilhões de estrelas, mesmo que algumas estimativas cheguem a 400 bilhões. O Sistema Solar, que começou a se formar há cerca de 4,66 bilhões de anos, traz uma dessas estrelas em seu centro: o Sol. Orbitando essa estrela como terceiro planeta mais próximo, existe a Terra, cuja idade aproximada é de 4,54 bilhões de anos. A vida na Terra provavelmente iniciou seu processo de evolução com a produção de uma molécula autorreplicadora há 4,1 bilhões de anos – embora alguns dados apontem para 3,6 bilhões de anos. Em toda essa história, o ser humano anatomicamente moderno surgiu há cerca de 200 mil anos, atingindo o comportamento moderno há 50 mil anos. Não é um escândalo?

 

Pois bem. Nesses 50 mil anos de comportamento moderno do ser humano, as primeiras organizações sociais surgiram por volta de 12 mil anos atrás, sendo que a invenção da escrita se deu há cerca de 7 mil anos. O curioso é que em todo esse percurso, o ser humano criou aproximadamente 10.000 religiões, considerando que os principais grupos religiosos e espirituais do planeta, contando com o percentual de indivíduos que se declaram irreligiosos ou ateus, segundo pesquisa feita pela Pew Research Center e divulgada pela Pew Research Forum on Religion & Public Life em 2012, são os seguintes, tendo como parâmetro a população mundial: 31,5% cristianismo (aproximadamente 2,21 bilhões de adeptos); 23,2% islã (aproximadamente 1,63 bilhão de adeptos); 16,2% irreligiosidade e ateísmo (aproximadamente 1,14 bilhão de adeptos); 15% hinduísmo (aproximadamente 1,05 bilhão de adeptos); 7,1% budismo (aproximadamente 0,50 bilhão de adeptos); 6,7% religiões populares (incluindo religiões tradicionais chinesas, africanas, americanas nativas e aborígenes australianas, contando com aproximadamente 0,47 bilhão de adeptos). Se existem tão variadas criações religiosas no planeta, como referir que existe uma ou outra que esteja certa ou errada? Ao menos no meu ponto de vista, parece uma tarefa completa e totalmente impossível, já que a fé independe de qualquer parâmetro racional para que subsista.

Por isso me preocupa o proselitismo religioso atualmente vivenciado na política. Mais ainda, conservo receios imensos quanto às possibilidades da influência religiosa no laicismo estatal, fenômeno que aparentemente vêm crescendo em todos os países em função da palpável ortodoxia religiosa contemporânea. A laicidade estatal, princípio que separa Estado e religião, remanescente do século XIX, persiste como um pressuposto mais formal (legislado) que material (concretizado) na realidade em que vivemos, ameaçando as conquistas protagonizadas pelos direitos humanos no transcorrer do século XX. A maior parte das pessoas não consegue compreender que toda e qualquer crença, assim como toda e qualquer moralidade, diz respeito apenas e tão-somente à sua esfera íntima e individual, de modo algum abrangendo seu entorno social. Tal atitude, para dizer o mínimo, é de um egoísmo soberbo, em nada compactuando com os laços fraternos apregoados pela maioria das vertentes religiosas conhecidas.

Talvez a razão desse alvoroço esteja na carência de esperanças que vivenciamos dia após dia. O mundo nos parece cruel, arredio, frio, de maneira que a crença em um “além”, seja de qual ordem for, lega ao indivíduo uma maior segurança para seguir sua rotina. Respeito totalmente essa posição. Cada qual acredita no que bem entender e segue sua vida, desde que não pretenda afetar a existência dos outros por conta da sua convicção religiosa. Se o reconhecimento da diversidade é o pressuposto de toda cultura, a aceitação desse princípio na questão religiosa é um mínimo ético que deveria ser seguido por todos. Como agnóstico, conservo-me cético, humanista e aberto a quaisquer debates que tenham por ponto de partida e chegada a racionalidade, não carregando a intenção de “desconversão” em quaisquer das minhas palavras. O que me atormenta, porém, é que alguns indicadores sociais e políticos com os quais tenho tomado contato, aparentemente apontam para uma “involução civilizatória”, para o que muito contribui o fator religioso. Há freio para essa tendência? Francamente não sei. Mas tenho a consciência de que o reconhecimento da antiquíssima história do Cosmo e da recente trajetória humana é uma possível largada na direção de um rumo diverso dessa nova “Idade das Trevas” que aparentemente se avizinha de nós.

Antes de tudo, precisamos cultuar o escândalo da vida.