O jogo

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Acordou do amor. Queria lembrar os braços dele. Não conseguia. Queria lembrar as mãos, os cabelos. Não conseguia. Lembrava um rosto estranho que quanto mais próximo, mais distante ia. Havia aprendido jogos que escondem cartas debaixo da manga. Mas sempre fora às claras. Se uma briga ir madrugada adentro, com pratos voando pela janela, ótimo. Mas se as coisas forem feitas como se faz nos escritórios, tornando o sentimento uma questão corporativa, chamava a conta. Relações não são contratos, ainda que a conveniência dite as normas de tudo.

Mas como pedir o fim? Chegar com um “acabamos”? Seguir os conselhos da Cláudia ou da Nova? Nada parecia real. Tudo tinha o cheiro dos argumentos dele, ironias que detinham coices, coices que detinham afagos e afagos adiados pelo horário e pela filha que morava noutra cidade.

O dia era cor de chumbo quando deu partida no carro. Havia neblina nos morros. Talvez aquilo dissesse algo: a neblina também era cinza. Mas ela sabia que as coisas não dizem nada além delas mesmas. Entrar nesse jogo de relacionar tudo com tudo, seria idêntico ao pôquer no qual se encontrava sua vida. Esqueceu ou tentou esquecer esses detalhes, ignorando as piscadelas que a memória queria escavar.

Como manhã e domingo, com certeza ele estaria dormindo. Pela madrugada havia enchido a cara, dado fiasco ao cantar no palco de um pub qualquer e transado com “alguém fim de festa”. Mas havia acontecido ou tudo era tão sem lógica quanto a neblina dos morros? Não passava de suposição. Mas toda loucura tem raiz naquilo que se supõe.
Quando chegou, desligou o motor e o suor das mãos. Desceu, caminhou pela calçada que separava o jardim da porta. Ao apertar a campainha pela primeira vez, ninguém atendeu. Esperou, apertou novamente. Ninguém. Colou o polegar no botão e foi aí que ouviu uns passos perto da porta.

“Sim?”, disse um homem nos seus setenta anos, vestindo bermuda xadrez e camiseta de campanha de vereador. “O senhor mora aqui?”, perguntou. “Sim.”, respondeu o velho com cara sonada, cabelos brancos espetados pelo travesseiro, braços com manchas roxas, rosto molhado pelo tapa frio d’água.

Ela franziu a testa, olhou para baixo e depois para o número da casa. 985. Não era engano. Há um ano frequentava aquele lugar. Final de semana sim, final não. Até nos dias da semana, quando o trabalho gerava o despudor do pós-trabalho e o remédio para a tristeza era sexo e cerveja, às vezes estava ali.

“A senhora deseja alguma coisa?”, quis saber o outro, coçando olhos de sono com as costas das mãos transparentes. “Não…”, disse rouca, “acho que me enganei de número…”.
Voltou devagar, pela calçada, separando o jardim da porta. Já não queria o fim. Queria um começo. Imaginava um recomeço sem conhecimento seguro, exato do quê. Por que ele não estava na casa lilás 985? Por que saiu de lá de uma hora para outra? Puxou o celular da bolsa. Telefone dele desligado. Entrou no carro como quem entra num lugar pela primeira vez. Sabia só que era manhã e domingo e tudo cinza. A neblina dos morros era falta de cor como seu carro cinzento. Tudo o mais, ausente. Por qual motivo não estava? E o celular desligado? Tudo era mudez. Fumaça em lâmpada fosca. Carta debaixo da manga. Suspensão na véspera de um golpe.

Quem sabe seu amar tivesse estancado, de tanto guardado, de um guardar avarento, sem porque, tudo jogado. Quem sabe nem árvores existissem e tudo não passasse de mera coincidência que brota da mesma forma que feijão do algodão dos jardins de infância. Quem sabe tivesse demorado demais e tudo se tornara pálido – cartas marcadas, previsível. O amor, como um blefe, envelhecera antes de descer à mesa do jogo.

Conhecer todas as regras, cinzenta.

P.S.: Não lembro ao certo quando escrevi esse conto. Para ser sincero, nem lembro do sentido exato que desejei imprimir às palavras. Mesmo assim, penso que o recado seja claro: quando você conhece todas as regras, todas as possibilidades que cada momento desvela e mesmo assim não faz absolutamente nada para mudar, na intenção de injetar um “elemento surpresa” na sua vida, a desilusão é a única consequência.