O moralista, a religião e o ódio

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O moralista
O moralista vê sua moral como auto-evidente: a justificativa da sua moral é a própria existência da sua moral. Assim, o moralista não questiona a sua moral, mas julga a moral alheia, pois o que lhe cabe é agir constantemente como um juiz ou um pregador, não importando os demais valores da sociedade. O moralista entrará em contradições e cometerá injustiças – mas, para ele, isso não interessa, já que o necessário é dar lições de moral, independente da validade racional ou prática da sua moral. O moralista quer que “o outro” seja “o mesmo” – isto é: quer que todos se tornem ele (e ao defender a unidade, o moralista destrói a diversidade). Dessa forma, o moralista é, na maior parte das vezes, um fundamentalista – e uma sociedade majoritariamente moralista conviverá sempre com impulsos políticos totalitários, sejam seculares ou religiosos. Essa explicação parece encaixar em alguns acontecimentos e algumas tendências que presenciamos atualmente no Brasil.

A religião
Religião e política sempre se misturaram – e a religião já foi utilizada como instrumento de dominação e libertação em diversos contextos sociais e históricos. Por isso, a religião não é boa e nem má: trata-se somente de uma característica humana que pode servir a diversas finalidades. Mas, atualmente, nenhuma religião pode se apossar do Estado, sob o risco de fazer com que a coisa pública (direito) exista em prol da coisa privada (moral). Portanto, hoje, embora a conexão entre religião e política persista, não se pode colocar a moral (privada) acima do direito (público). Logo, qualquer líder religioso que se utilize da sua posição para a “catequização política” é, antes de qualquer coisa, um oportunista – valendo-se do seu papel para juntar em um mesmo discurso crença religiosa e ideologia política (o que, convenhamos, é uma tática de convencimento rasteira e pouquíssimo digna – ainda mais ao se perceber a proximidade de certos “políticos profissionais” em relação a alguns líderes religiosos). Quando esses “religiosos da política” aumentam em número sem que haja um contraponto à altura por parte de outras parcelas da sociedade, trata-se de algo que merece, no mínimo, atenção, pois representa uma inflação do conservadorismo sem uma resposta progressista que consiga equilibrar a balança. Óbvio que nem todo “religioso da política” é conservador. Mas com o avanço do neopentecostalismo e da Teologia da Prosperidade, em uma análise realista, fica difícil não reconhecer que sua esmagadora maioria o é. Vivenciamos isso no Brasil? Ao que tudo indica, sim – o casamento homoafetivo, por exemplo, não foi uma conquista alcançada via Congresso, mas por conta do STF (e a enumeração desse ponto demonstra bem a natureza das forças sociais em jogo).

O ódio
Transformaram ódio a corrupção em ódio ideológico, transformaram ódio a criminalidade em ódio aos direitos fundamentais, transformaram ódio a mudanças em ódio a quem defende mudanças: transformaram ódio ao outro em discurso de ódio em relação a todos os outros que não se adequam ao padrão que alguns julgam ser o único, o real e o verdadeiro – e esse ódio, em meio a uma crise econômica, institucional e política, tornou-se o porto-seguro purista do tradicionalismo da esquerda e da direita, pois quando separamos absolutamente o “eu” do “outro” podemos falar e defender tudo, já que a responsabilidade nunca será nossa.