O mundo em convulsão: a ambivalência sociopolítica contemporânea

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A escalada mundial de protestos, manifestações e revoluções vista nos últimos anos demonstra uma nova face da ação sociopolítica global. Contrária a um atrelamento partidário ou mesmo restrito aos limites nacionais, o que se vê são lutas cujo estandarte encontra eco na reivindicação de direitos básicos aos poucos retirados da esfera estatal pelo poderio econômico-financeiro protagonizado pelas empresas transnacionais e pelos governos que com elas compactuam. Se na primeira metade do século passado a movimentação política detinha um cunho vertical, buscando a transformação social a partir da realocação dos personagens políticos de acordo com uma nova ideologia que viria a se entranhar no organicismo estatal, o início deste século aponta que análises reducionistas que identifiquem um ou outro ato com libelos direitistas ou esquerdistas não mais dão conta da realidade que procuram abarcar.

Nesse contexto, o primeiro fato que deve ser investigado condiz com a expansão do espaço público propiciada pela internet. Não existe mais qualquer sentido em observar blogs e redes sociais como meros redutos narcísicos. Contrariamente, os meios de interação comunicativa contemporâneos possibilitam engajamentos massivos que do virtual ao material traduzem anseios democráticos antes calados pela impossibilidade do diálogo. Se os jovens estão cada vez mais conectados aos seus computadores e cada vez menos integrados ao seio familiar, como atestam alguns, isso apenas diz de uma improvável comunicação intergeracional ocasionada por uma drástica mudança da percepção de estar-no-mundo na atualidade.

Essa perspectiva se torna nítida quando são analisados os standards de sentido das causas contemporâneas. Mesmo que ainda seja necessária a luta por condições dignas de trabalho, educação e saúde, cresce a cada dia o engajamento com a causa ambiental. Extrapolando os limites do Estado-Nação e abrangendo a própria possibilidade da persistência da vida em nível global, o envolvimento da juventude com essas questões pode ser diagnosticado como uma lenta e gradativa inflação de um senso de pertencimento planetário. Por mais que a intensa aproximação de culturas e concepções de vida diversas possibilitada pelos meios de transporte e comunicação igualmente alavanque o surgimento de conflitos, é fato que a possibilidade de concretização futura de uma cidadania cosmopolítica, por exemplo, inscreve-se nas dobras do presente, manifestando um anseio de união que encontra entraves por toda parte.

Esses obstáculos, claramente demonstráveis pelo aumento da ortodoxia religiosa, pelo renascimento dos nacionalismos e pelo preconceito étnico, racial, sexual e social, refletem a importância que a aparente convulsão global de protestos, manifestações e revoluções traz para a construção de uma diferenciada noção de estar-no-mundo. Distante da tentativa de tomada de poder por algum partido, esses movimentos pretendem a universalização dos direitos humanos como uma iniciativa contra-hegemônica à globalização predatória acelerada pelo império econômico-financeiro expresso por uma minoria mundial. Se os meios de comunicação tradicionais pré-internet serviam apenas à imbecilização maciça, reproduzindo-se como uma indústria cultural que servia tão-somente à produção de títeres do sistema, os horizontes abertos pelo cenário contemporâneo, embora precários em sua intenção de concretização e efetividade, despontam um palco sociopolítico que aos poucos pode transformar a realidade socioeconômica mundial – modificando, assim, toda lógica do sistema.

Ocorre que a estigmatização dos protestos ocorridos em 2011 na Inglaterra, por exemplo, rotulando-se as manifestações como meros atos de vandalismo e arruaça, impede uma percepção apurada da população quanto ao teor reivindicatório manifestado por esses atos. Além disso, quando há uma preferência dos meios de comunicação comandados por grandes estamentos midiáticos transnacionais na cobertura dos eventos ingleses acompanhada de uma sonegação das igualmente importantes ocorrências vistas no Chile e na Espanha no transcorrer do mesmo ano, vê-se que o engajamento sociopolítico contemporâneo encontra imensos óbices sistêmicos e culturais para que tenha uma maior recepção por parte das massas. O gérmen da revolta é percebido pela maioria, aprisionada em veios interpretativos totalmente impulsionados pela ausência de um pensar reflexivo, racional e crítico, como simples intenção criminosa, tentativa de quebra de uma paz inexistente, redundando em um trato dessas manifestações que encontra respaldo na ação violenta dos agentes estatais. Óbvio é que não se pode negar que no seio e nas consequências desses atos existem atores sociais que se aproveitam da movimentação para materializar intenções que nada tem a ver com a semente da própria revolta. Mas entre reconhecer esse fato e tatuar nesses movimentos a pecha criminosa, existe uma grande diferença.

É necessária a construção de um pensamento distante do etiquetamento social. A convulsão contemporânea desencadeada pela movimentação sociopolítica e pela decadência do sistema econômico mundial deve ser percebida em sua palpável ambivalência. Se por um lado traz consigo a noção de que tragédias se avizinham e de que tempos sombrios rondam o futuro da humanidade, por outro pode suscitar o nascimento de um “momento cosmopolítico” que possa se traduzir em efetividade política na forma de instituições que independam ou trabalhem em conjunto com os Estados para a construção de um espaço público global, espelhando meios que possam garantir a vida em sociedade no âmbito planetário, com respeito aos direitos civis, políticos e sociais amalgamados em uma cidadania que surja a partir de uma affectio societatis mundial, unindo a humanidade em um propósito fraterno que ultrapasse fronteiras com alicerce nos direitos humanos e na projeção de um futuro comum e justo.

É claro que os desafios da contemporaneidade são imensos e necessitam de um longo espaço de tempo para que encontrem alguma resolução. Mas também é nítido o parto de uma nova noção de estar-no-mundo, a qual de modo invariável aponta para a superação de guetos de sentido na direção da emersão de uma outra possibilidade de concepção da realidade sociopolítica. Trata-se de um processo em marcha, onde a simultaneidade de circunstâncias, muito mais que sua sucessão, dita a ocorrência de cenários de constante entrelaçamento entre local e global. Essa possibilidade, afastada das dicotomias clássicas (esquerda/direita, nacional/estrangeiro, etc.), aos poucos dá espaço à emergência de um discurso não circunscrito apenas à banalidade de uma sociedade que orbita o lucro pelo lucro e o consumo pelo consumo. Talvez a humanidade esteja às portas de uma transformação radical que afetará as bases de tudo aquilo que até agora considerou como certo e inquestionável. Para que esse limite seja ultrapassado, a compreensão profunda dos protestos, manifestações e revoluções contemporâneas é essencial. Do contrário, a expectativa de mudança resultará em mera letargia pós-delirium tremens: confortavelmente anestesiada, será um proscrito sonho que repentinamente acaba.