O pai do homem

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Os anos passam, as prioridades mudam, os sonhos se esfacelam e tenho a nítida impressão de que ficamos mais burros semana após semana. Aliás, talvez não seja necessariamente burrice. Quem sabe nos tornamos apenas mais apegados às coisas cotidianas e acabamos esquecendo daquilo que nos constitui. Vejo por mim. Quando eu tinha cinco anos, meu ideal era ser arqueólogo – culpa do Indiana Jones. Já aos oito, minha meta era seguir a carreira de paleontólogo – responsabilidade total do Jurrasic Park. Um pouco mais tarde, entre os onze e os quinze, eu queria me tornar escritor e jornalista. Dos quinze aos dezessete, pensava em ser músico, sendo que dessa idade em diante trazia comigo a vontade de ser professor universitário – o que efetivamente acabei me tornando.

Onde foram parar aqueles outros objetivos? Não que de alguma forma não os realize diariamente – creio que esse meu ímpeto de descobrir as origens de tudo e mais um pouco, por exemplo, nasceu lá na infância, muito por conta do cinemão do Steven Spielberg, como falei acima. Mas o fato é que se uma ou outra estradinha dos dias fosse percorrida de maneira diversa, tudo seria absurdamente diferente.

Confesso que escrevo essas linhas em meio à insônia, com o corpo um tanto cansado por uma tarde atribulada. A cidade, quieta, desfila fofocas em sussurros para o vuco-vuco que virá ao amanhecer. Logo aparecerão aqueles senhores caminhando ao nascer do sol e carros e mais carros indo de um lado para o outro. É interessante essa solidão. Somente um caminhão perdido na madrugada cruza de vez em quando – e o que posso ouvir aqui da minha posição, é o barulho dos dedos no teclado seguido do ventilador que espanta esse ameno calor maranhense enquanto minha namorada dorme ali no quarto.

Devo ter escrito a maioria dos meus textos com alguma pretensão literária em um cenário parecido na adolescência. Quando efetivamente comecei com essa sanha da escrita, em torno dos dez anos, a internet ainda se arrastava nesse país – de modo que não perdi meu tempo com salas de bate-papo ou sites pornográficos, mas gastei essas horas em livros e rascunhos mil. Lembro que por vezes não sabia o que escrever e me punha a desenhar. Eram rabiscos toscos, com alguma pretensão abstrata que morria ao menor sabor interpretativo.

Diversos cadernos foram preenchidos nessas ocasiões. Em algum arquivo do computador, fósseis textuais certamente permanecem para que um dia, vá saber, recebam uma revisão. O peculiar dessa condição é que quando (e se) eu reler essas escrituras, perceberei inúmeros erros frutificados unicamente pela percepção que trazia na época. Mas será que efetivamente são erros? Do ponto de vista estilístico e lógico, obviamente. Mas a partir de uma ótica existencial, talvez se tratem de indícios que invariavelmente apontam para o caminho que hoje sigo – do qual, tenho de frisar, não me arrependo nenhum pouco, como talvez tenha ficado erroneamente subentendido no primeiro parágrafo.

O que me estranha e sempre irá me estranhar é que podemos nos tornar qualquer personagem, vestir qualquer fantasia no transcorrer da existência. Como fazer isso? Basta desejar e trabalhar com afinco no rumo desse desejo. Não se engane com essas balelas de o Universo conspirar para que seus sonhos se realizem ou troços do gênero: isso não existe e é consequência dessa onda atual de querer fundir toscamente preceitos científicos com tópicos religiosos. O máximo que pode ocorrer é você deixar migalhas aqui e acolá que, quando reunidas, levam você exatamente para o lugar no qual se encontra. Existe algum sentido nisso? Se você quiser atribuir um sentido, existe – do contrário, não. Pode parecer aterrador, pode parecer algo que dá medo, mas se trata simplesmente de você e sua vida. Por essa razão é que em algumas oportunidades eu gostaria de retornar para aqueles sonhos do passado. É possível que eu descobrisse algo de valor sendo arqueólogo ou encontrasse o elo perdido de alguma espécie de dinossauro do diabo a quatronas pinguelas da paleontologia.

Duvida? Eu também. Mas como dizem por aí: “nunca descarte qualquer possibilidade”. Entretanto, vejamos: com essas palavras, mix de quietude e nostalgia tranquila, não estou de alguma forma tecendo um inventário do meu passado com sons mudos que se emaranham na tela do computador e que talvez cheguem nesse momento aos seus olhos? Pois é: quase o trabalho daqueles que dedicam a vida a desbravar o passado, seja dos gigantes pré-históricos ou de civilizações esquecidas. Por isso é que só posso concluir o que Machado de Assis falou no século XIX: “o menino é o pai do homem” – e é com eleque mais aprendemos sobre quem realmente somos.