O que salva?

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Possuímos mais pontos de convergência que de divergência. Possuímos mais fatores que nos igualam do que aqueles que nos diferenciam. Mas insistimos em lembrar apenas das divergências e das diferenças – e a massaacaba não se dando conta de que é uma e não várias. O resultado? Discursos medíocres, maniqueístas, prepotentes e preconceituosos – vivendo, em grande parte, à base do rançodos escombros do Muro de Berlim, como se a configuração mundial ainda tivesse algo de leste/oeste e não fosse uma teia multilateral de forças em desequilíbrio.

Se a oposição se considera a porta-voz da honestidade e dos “cidadãos de bem”, a situação se considera vítima de perseguição e a própria estampa da legalidade: mas se a segunda vê a primeira como “golpista”, a primeira vê a segunda como “vendida” – uma insiste na arcaica retórica da “casa grande” e outra teima na atrasadadicção da “senzala”, aprofundando mais e mais o fosso que ilusoriamente as divide. Poucos falam da existência de uma comunidade de destino entre ambas – e poucos dizem que a revolta é mais econômica que moral de um lado e mais apegada ao poder que justa do outro.

O que se quer é vencer no grito e na base do rótulo – e essa busca incessante por bodes expiatórios e salvadores da pátria em meio ao limbo político e econômico no qual o país se encontra, é uma demonstração visceral de imaturidade intelectual, já que a maioria ainda vive na lógica do mocinho e do bandido. Daí surge um líder de partido que faz ameaças e uma médica que nega atendimento por questões partidárias. Daí surge um bispo que é atacado após uma celebração religiosa e uma situação que para sobreviver esmola acordos com o que há de mais vil na política brasileira. Daí uma criançaé agredida pelos colegas por usar uma camiseta vermelha e outraé reprimida pelos amigos por defender ideais capitalistas.

No meio disso, enquanto os “pequenos” se digladiam, os “grandes” vivem de oportunismo, seja nas letras de uma sigla ratazana que abandona um navio naufragado sob alegação de uma ética que nunca teve, seja no semblante de “novos líderes” que se autodenominam a materialização da “moral e dos bons costumes” de um passado que nunca houve. É triste o tempo no qual a disputa política se torna uma luta de fanáticos travestidos de democratas – dando vazão ao que de pior há no comportamento humano e instigando o retorno de um conservadorismo à esquerda e à direita. Tudo vira espetáculo: se o Brasil é um circo, estamos nas arquibancadas encantados com o picadeiro – mas a lona, lentamente, é consumida pelas chamas.

Será que as pessoas não percebem que por mais que a revolta tenha origens difusas de um lado e de outro, as vozes de descontentamento iniciaram em junho de 2013 e não foram sequer minimamente ouvidas pelas mentes que arquitetam a política brasileira desde a redemocratização?Será que as pessoas não notam que a verdadeira luta não é contraseu compatriota A ou B, mas contra um sistema de troca de favores, negociatas institucionalizadas e invasão do público pelo privado que não pode, de formaalguma, ser atribuído a uma única bandeira e nem banido por meio de uma solução paliativa? Será que as pessoas não veemque diante dessa crise em comum, o que nos cabe é encontrar um plano também comum para amainar esse fogo que nos rodeia e nos ameaça?

Precisamos de um novo projeto para o Brasil: um projeto que não passe pelo tradicionalismo da esquerda e da direita, cruzando, de outro modo, pelo entremeio de tais propostas civilizatórias e se dando conta que o contexto atual não pede uma exacerbação da liberdade e um totalitarismo da igualmente, mas uma pauta que se mova pela universalização da fraternidade. Os laços solidários sufocados pela individualização e pelo egocentrismo necessitam ser reavivados – e não é com o apelo ao ódio aos semelhantes que essa recriação se dará. Quando o futuro é incerto e o presente angustiante, é normal o surgimento de um retrocesso que enfatiza o imediato eclama por um retorno ao passado. Mas não é nem por uma nem por outra via que a realidade, de fato, poderá ser transformada.

Um novo plano para o país não passa pelo emudecimento de nenhuma voz, pela criminalização de nenhum movimento e pela marginalização de nenhuma camada social. Passapela tentativa de equilíbrio na dissonância – pois é disso, essencialmente, que se alimenta a democracia. Não será um único líder que transformará o cenário e também não será uma expiação coletiva que nos livrará de maiores reveses. Nada irá se modificar imediatamente e o que está em curso há quase três anos é um processo dolorido que pode, mesmo que pareça utópico, ser revolucionário. Não se trata de uma revolução no sentido clássico, seja à direita ou à esquerda, mas de uma revolução apegada à força das instituições e da soberania popular em seu constante entrecruzamento e perturbações mútuas: um jogo cuja oscilação permanente é o fiel da balança – e cuja dinâmica se alia às letras da Constituição. Necessitamos, porém e mais do que tudo, de um alinhamento da igualdade na diferença e da diferença na igualdade, o que somente se dará pelo reconhecimento profundo de que no Brasil e no mundo, para o bem e para o mal, estamos no mesmo barco – sendo que disso e só disso, poderá brotar a fraternidade. Como disse o poeta Hölderlin: “ali, onde reside a dor, está também aquilo que salva”.