“O Retorno de Saturno”, o liquidificador, o pneu e o “Louco do Badanha” (ou “Da origem das superstições”)

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Gostaria de ser supersticioso. Decepção: não sou. Não consigo entender a razão pela qual soprar o gargalo de uma garrafa vazia traz maus agouros, por exemplo. Mas certas coisas dão o que pensar. Se somar os acontecimentos que relatarei ao fato de que, com recém completos vinte e oito anos, acabei de entrar no que os astrólogos chamam de “O Retorno de Saturno”, algo certamente surgirá. O quê? Uma dedução totalmente racional ou uma profecia ao estilo “2012: esqueçam suas malas”? Não faço ideia. Por isso, vamos ao ocorrido.

Meados de fevereiro de 2012. Onze e pouco da noite. Encontro dois filmes legais pra assistir. Primeiro: “Reflexões de um Liquidificador”, dirigido por André Klotzel. Roteiro: um liquidificador, após conserto, adquire consciência e passa a questionar sobre a vida e a morte – além de auxiliar uma dona de casa com os “restos” de um assassinato. Segundo: “Rubber”, dirigido por Quentin Dupieux. Enredo: o protagonista é um pneu com poderes telecinéticos e capacidade de matar o que enxergar (?!) pela frente. Até aí, ok. Penso: “Legal!, revolta dos objetos!”.

Mas lá pela metade do segundo filme, ouço uma gritaria na avenida. Espio. Vejo um sujeito alto, gordo, careca, roupas esfarrapadas de fugitivo de manicômio do século XIX, juntando gravetos caídos de árvores magricelas enquanto berra: “Lenha! Lenha! Olha a lenha do Badanha!”. (Minha atenção muda pra TV: é uma moça que teve a cabeça explodida pelo poder do pneu.) De canto, observo o cara dos gravetos – que percebe meu olhar e para. Sinto-me vigiado. Fecho a porta da sacada e sento. Estou meio assombrado.

Rita Lee me acalma: “Ah! São coisas da vida!”. Marcia Tiburi me assalta: “os mendigos, moradores de rua e loucos representam o inconsciente das cidades”. Dou uma risada em colchete. Um gole d’água e o filme chega ao final: destroçado o pneu, seu “espírito” encarna em um triciclo e ruma para Hollywood. “Talvez a ausência de sentido explique quase tudo nessa vida”, falo sozinho ao espelho quando me preparo pra dormir.

“Certo. Mas e aí?!”, pergunta-me o “Leitor Desconhecido” que sempre me indaga quando escrevo qualquer frase. “Aí complica a batatinha!”, respondo sem mais, querendo dar uns sopapos no espectro mental. Mas como não me assusto fácil, traço uma hipótese. Seus fatores: a) “Moer é pensar, pensar é moer”, fala o liquidificador em dada cena; b) “A ausência de razão é o principal elemento de um estilo”, argumenta um policial baleado no prólogo do filme do pneu; c) “Lenha! Lenha! Olha a lenha do Badanha!”, esbraveja alguém na madrugada de Santo Ângelo.

Pois bem. Se “a ausência de razão é o principal elemento de um estilo” (b) e juntar a “lenha do Badanha” (c) consiste em uma tarefa totalmente atrelada à ausência de razão, o que faz do ato um acontecimento estilístico à Buñuel (leia-se: surreal), pensar acerca desse cenário é um exercício de moagem (a) (“moer é pensar, pensar é moer”): qualquer suco daí extraído, quando bebido, terá um sabor tão ou mais estranho que aquelas sensações misteriosas e sem nexo descritas nos rótulos das garrafas de vinho (tipo: “pitangas amendoadas com tonalidades de orvalho primaveril”).

Mas o que esse catatau afirma? Isso: quando o sentido de algo depende da sua ilogicidade, qualquer resquício lógico sabota sua possibilidade de significação. E fecho assim: eu, vinte e oito anos, barba quase feita, calça jeans antiga, camiseta de uma festa de 2009, olho pro teto calvo de claridade e procuro relacionar o barulho da minha respiração com o liquidificador, o pneu, o “Louco do Badanha” e “O Retorno de Saturno”. Daí brota uma conclusão: quando você busca ligações de “A” com “Z”, acreditando que existe um traço de lógica nesse esquema (ainda que o mundo todo teime que não), o que surge é um relato sem pé nem cabeça. De planchaço, dá pra perceber que essa é também a origem das superstições: nossa mania maluca de procurar pêlos na casca do ovo da realidade.

(P.S.: Percebem como tudo na vida nos traz uma lição? Bonito! Mas fico por aqui: hora de ler meu horóscopo – mesmo não sendo supersticioso, é gostoso brincar de místico.)