O sangue dos outros e “aglomerações estéticas”

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O sangue dos outros

É absolutamente anormal uma sociedade que critica a violência mas aplaude um policial que dispara contra um indivíduo, como se percebeu do intenso compartilhamento de certo vídeo nos últimos dias nas redes sociais.

Não discuto a eficiência tática do policial – longe disso, até porque nada entendo do assunto.

O que coloco em pauta é a repercussão das imagens, chancelada pelo jargão “bandido bom, é bandido morto”.

Trata-se de uma postura que, para obter a redução da criminalidade, parte da posição de que toda e qualquer violência estatal é legítima.

Não que o monopólio da utilização da violência não seja uma característica de qualquer Estado, como constatou Max Weber no início do século XX. Isso não necessita de refutações.

O que se pode discutir são os limites dessa legitimidade, os quais, no mais das vezes, inexistem quando se trata da postura do Estado diante de certos cidadãos – considerados indesejados para a existência de uma suposta e inatingível “harmonia social”.

Talvez, no caso específico, a ação policial tenha sido correta – não tenho conhecimento do tema, digo novamente.

Mas entre reconhecer a necessidade de determinada ação e praticamente explodir em gozo vingativo unicamente porque um indivíduo foi atingido por disparos de uma arma de fogo, existe uma grande e abissal diferença.

O que parece é que não encaramos ocorridos do gênero como algo real.

Aparentemente, visualizamos um filme de ação, repleto de explosões e tiroteios, ou um game no qual a vida do personagem pode ser restaurada com um simples reset.

Esquecemos que nosso mundo é de pele, osso e carne, adotando uma expressão que encara a vida como ficção e não como dolorosa e cruel realidade.

Quem sabe isso tenha mesmo a ver com outro vídeo que circulou nas últimas semanas pela internet –mostrando uma moça de Goiânia em pleno ato sexual, o qual frutificou uma torrente de comentários machistas e preconceituosos (relegando ao puro limbo os sentimentos da pessoa em questão).

Se isso nos diz algo, é que em se tratando de sexo e violência simplesmente não conseguimos diferenciar a ficção do real – e restamos presos em armadilhas da falta de consideração para com o outro, para com nosso semelhante, que nos colocam em uma situação cada vez mais distante da possibilidade de um horizonte verdadeiramente fraterno para a humanidade.

“Aglomerações estéticas”

Os escritores que mais admiro não fazem ou fizeram parte de qualquer academia de letras.

Os filmes que mais me tocaram, salvo raríssimas exceções, jamais ganharam o Oscar ou a Palma de Ouro.

Poucos dos músicos que respeito levaram o Emmy ou algo que o valha.

Dadas essas condições, será que o errado sou eu ou essas “aglomerações estéticas” no fundo tem pouca ou nenhuma relevância artística, servindo apenas como nichos de vaidade?

Pelo sim e pelo não, o que devo fazer, certamente, é deixar de ser tão chato.