O taxista e a esperança

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Sou do tipo que confia no potencial humano. Ainda que desgraças e crueldades povoem os noticiários e me deixem, por vezes, completamente desesperançado, não consigo deixar de acreditar que dias melhores virão. Quando, em um rápido retrospecto, vejo o quanto a humanidade evoluiu nos últimos trezentos anos, percebo que se por um lado podemos agir como completos crápulas, pensando tão-somente em nós mesmos e pouco se lixando para as outras bilhões de pessoas que habitam o planeta, por outro somos capazes de proezas incríveis que em outras épocas soariam como “algo mágico”.

Mas minha confiança não para por aí. Esses dias, em uma corrida de táxi, o motorista falou que pegar uma determinada avenida que eu havia sugerido “não era muito auspicioso”. De imediato, pensei: “Nossa! Não é qualquer um que utiliza essa palavra! Que bacana!” – e cheguei ao meu destino portando algumas gramas de felicidade pelo simples fato daquele homem aparentemente humilde utilizar uma palavra que considero incomum no dialeto corriqueiro do brasileiro. Francamente, cogitei em devaneio que o sujeito deveria ler clássicos em suas horas de folga – quando, naquele limbo da espera por novos clientes, certamente jogava as pernas no painel do carro e relaxava nas linhas de algum romance russo.

Triste ilusão a minha. Quando comentei isso com a minha namorada, ela cortou meu barato sem dó nem piedade. De cara, lembrou-me de algo que nunca me ocorreria: há alguns anos, em uma novela chamada “Caminho das Índias”, certos personagens utilizavam o termo “auspicioso” pra lá e pra cá. Portanto, o taxista não era, com toda convicção, um entusiasta da língua portuguesa ou um voraz leitor de Dostoiévski: tratava-se apenas de um cara qualquer – alguém “do povo”, como diria o Lula – que acompanhava com a família algum capítulo ou outro de uma novela da Globo. Pode uma coisa dessas? Banho de água fria é pouco para descrever a decaída do meu humor – e como um cão arrependido, coloquei o rabo entre as pernas e aquietei o entusiasmo.

Mas convenhamos: é fácil perder a esperança nesse finalzinho de 2015. Olha esse combo: atentado terrorista em Paris + guerra civil na Síria que parece nunca ter fim + EUA com 350 ataques em massa só esse ano + xenofobia crescendo na Europa (e até no Brasil) + crime ambiental sem precedentes em Minas Gerais + Dilma com o rabo preso no TSE e no Congresso + desemprego com seu maior índice desde 2002 + policiais paulistas no corpo a corpo com estudantes do Ensino Médio em São Paulo + empresários de todo canto sendo presos em operações da PF + um monte de Papai Noel sem trabalho porque a coisa está feia para o comércio + seja-lá-o-que-for-de-ruim-que-você-quiser-colocar-aqui. É complicado. Dá até vontade de abrir a janela e berrar para o mundo aquele refrão do Nenhum de Nós: “por favor, me traga uma notícia boa!”. Mas adiantaria? Acho que não.

O que me pergunto, porém, é o seguinte: será que não foi sempre assim? Ou mais: será que no passado não foi ainda pior? A única resposta que me chega é esta: certamente – e o que difere o ontem do hoje, em termos de propagação de desgraças, é basicamente a velocidade com a qual as informações percorrem zilhões de quilômetros em um piscar de olhos. Claro que a natureza se encontra cada vez mais degradada, por exemplo – mas hoje, ao menos, como ocorre na 21ª Conferência do Clima, a COP 21, isso é discutido abertamente e não simplesmente varrido para baixo do tapete como se fosse algo sem a menor importância. Diante de atrocidades, também acontece algo que se deve ressaltar: nós ainda temos a capacidade de nos comover, de repudiar aquilo que nos afeta intimamente e até mobilizar centenas de indivíduos em prol de causas humanitárias. Mesmo em meio a tanta tristeza, a humanidade brada esperanças que podem até não ser perceptíveis – mas se inscrevem nas bordas do presente como possibilidades de um futuro melhor.

Tratei de algo do tipo quando escrevi minha dissertação de mestrado e estudei a possibilidade ou não de uma cidadania pós-estatal. Explico. Para você ser cidadão e ter, na concepção clássica de Hannah Arendt, o direito a ter direitos, necessita ser nacional de determinado Estado. A nacionalidade, assim, aparece como condição de acesso à cidadania, dividindo os seres humanos, a partir da perspectiva do Estado, em duas categorias: “aqueles de dentro” (os nacionais) e “aqueles de fora” (os estrangeiros). Minha conclusão, inspirada em Ernst Bloch, após umas cento e noventa páginas, foi de que uma cidadania pós-estatal, aquela que não partiria da nacionalidade para a concessão de direitos, aparece como um “ainda-não” – isto é: desponta como potencialidade na contemporaneidade, sendo que vários dos seus indícios podem ser arrolados no presente, mas a situação atual ainda não comporta condições viáveis ao seu nascimento (o que se dá em função de uma equação complexa cujos sintomas podem ser notados até na aversão que alguns brazucasdemonstram em relação aos refugiados haitianos).

O que essa consideração do “ainda-não” traduz? Isso: as coisas não estão boas e certamente irão piorar muito antes de melhorar um pouco, como diz meu amigo VeniciusFollmann de Oliveira, mas essa visão não significa que não devamos buscar, como o Mulder e a Scully em “The X-Files”, uma evidência de esperança em meio a toda essa escuridão. Essas evidências se escondem, eu sei disso. Nessa brincadeira, é fácil cairmos na crítica pela crítica e na decepção pela decepção e apenas crer que a única solução para a humanidade é o apocalipse zumbi. Mas, humanos que somos, transformadores que somos, potencialidades que somos, temos o dever ético e moral de não desistir e persistir na esperança de que dias melhores virão – desde que tenhamos os sentidos extremamente conscientes nessa balbúrdia do presente. Quanto a mim, continuarei confiante de que existe algum taxista que utilize a palavra “auspicioso” sem nenhum pé em “Caminho das Índias” – por mais que alguma pessoa sensata, como a minha namorada, sempre esteja pronta para me trazer de volta ao chão.