OK!

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OK, já entendi faz tempo: de um lado existem “os PT” e de outro “os anti-PT”. Mas alguém, de um canto ou outro, traz alguma saída para a crise na qual nos encontramos? A solução mágica é o impeachment da presidente e a confiança cega em um Congresso chefiado por dois canalhas – que traz vários canalhinhas meia-boca em sua composição majoritária? Me poupem de surrealismos – a vida não é um filme do Buñuel, por mais que às vezes eu desconfie disso. Entendo o descontentamento, até porque também não estou contente. Mas entre compreender esse cenário e apenas seguir a massa histérica que berra impropérios sem apresentar nenhum projeto de mudança, existe uma larga diferença.

Digamos, por exemplo, que a presidente caia e assuma o vice. Do PT, passamos para o PMDB. Qual é a qualidade dessa troca? Sujo por mal lavado? Esquizofrenia tem tratamento, gente. Mas tudo bem: vamos adiante. Suponhamos que caia a dupla que comandao Planalto e sejam convocadas novas eleições. A solução, nesse desenho, será quem? Aécio? Lula? Bolsonaro? Cunha? Datena? Parlamentarismo?! Tenso demais. Parecemos adolescentes birrentos e irresponsáveis dizendo que a culpa pelas notas baixas é do professor. Gritamos, batemos panela na sacada dos nossos apartamentos, convocamos protestos no Facebook – mas não temos paciência para sentar e refletir como adultos sobre a macroestrutura legal, política, social e econômica que proporciona a existência desses descalabros que presenciamos.

O fato é que o brasileiro, ao olhar no espelho, não enxerga seu rosto: visualiza aquele que quer ver. Se numa manhã julga acordar “indignado”, vai ao banheiro e lá está uma lata perfeita para um revolucionário com ideais metafísicos. Se noutro dia acorda com quês de “conservador”, escova os dentes e vê respingos de século XVIII em seus olhos remelentos, falando de “família tradicional”, “Deus no comando” e não sei mais o quê. O que nunca aparece, porém, são os contornos reais da sua face. O que jamais enxerga é aquela vontade de sempre querer passar a perna no outro, de jogar o lixo no pátio do vizinho, de vender sua dignidade àquele candidato que descolará um CC se eleito, de desviar o olhar quando percebe um fulano passando fome na rua.

O que não nota é quem ele é: um ser que desde Carmen Miranda vendeu ao mundo uma imagem de tolerante e de alegre, mas que em sua intimidade conserva um reacionarismo febril e raivoso que se prostitui para qualquer um que vista a toga de salvador da pátria. Por isso é que sinto informar: não existem salvadores da pátria e não existe salvação para a pátria, até porque a pátria, essa suposta unidade tropical na qual o boato virou notícia, também não existe. Igualmente, a salvação não virá de uma esquerda que vive dos ranços do Muro de Berlim, de uma direita que parece aposentada frígida que dorme com dez gatos, de um centro que tem a vaselina como estandarte ideológico ou de um“céu” prometido pelo pastor que veste Armani e sequer acabou o supletivo: se continuarmos negando a simples possibilidade de sentarmos e conversarmos decentemente, nada irá se resolver.

Sim: conversar, do latim “conversari”, que significa “viver em companhia”. Viver em companhia do diferente que, embora por vezes nos irrite, também tem algo a dizer e pode, desde que nutrido pela mínima intelectualidade e por um rescaldo de senso crítico, auxiliar na busca por um caminho em tempos de crise. Essa é a saída – e não aplausos frenéticos a intrigas palacianas que julgamos grandes avanços políticos. A saída é reconhecer quem somos, sopesar nossos erros e acertos, ajustar o prumo das nossas aspirações e, a partir daí, buscar em conjunto uma mudança verdadeiramente real – porque os anseios que tem tomado conta do Brasil não são por mudanças, mas por um mais do mesmo que de tão atabalhoado e chulo, parece Power Point do Romero Britto.

Mas não espero que essa tomada de consciência ocorra logo. Antes que ela desponte, precisaremos, por teimosos que somos, passar por uma fase tremendamente tosca e alvoroçada, uma espécie de puberdade tardia etiquetada pela revolta contra um opressor que elegemos opressor a partir do critério do uni-duni-tê. Junho de 2013 faz eco em 2015 – mas um eco distorcido e dissonante, pois não conquistamos a capacidade de “pensar fora da caixa”, de procurar soluções distantes desse binarismo “PT”/“anti-PT” que nos consome e nos leva ao lamaçal. Até que as pessoas atinjam, em se tratando do debate político e da busca por alternativas republicanas, um nível minimamente racional e verdadeiramente preocupado com a coisa pública, continuaremos nessa sinuca de bico, conversando por meio de monólogos que de modo algum se encontram e persistem vazios da base ao topo. A democracia exige convivência, reconhecimento, conversa e ouvidos, não esse digladiar sem fim que se quer politizado mas é, acima de tudo, tremendamente bitolado e perigoso.