Outro sol: por uma ética da fatalidade e da irreversibilidade da existência

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Não é necessário muito para vivermos bem. Precisamos de alimentação, de abrigo contra o frio e de algumas pessoas para amar. Não necessitamos de quinquilharias eletrônicas e de uma conta recheada com valores exorbitantes. Claro que saúde, educação e trabalho dignamente remunerado são essenciais. Mas qual é o motivo de nos preocuparmos com tantas coisas fúteis se podemos morrer de uma hora para outra? Uma noção clara da finitude modifica o rumo das nossas aspirações. Mas o modo como a sociedade se estrutura esconde a sensação da proximidade e da certeza da morte.

Na Antiguidade Clássica, entre os séculos VIII a.C. e V d.C., a morte era algo muito presente na vida das pessoas, o que se verifica pela importância dos rituais fúnebres para certas organizações sociais greco-romanas. Nas sociedades remotas, os entes familiares, quando faleciam, deveriam ser obrigatoriamente cultuados pelos seus descendentes. Tanto é que algumas comunidades arcaicas detinham túmulos coletivos no interior das casas, já que se acreditava que a vida não acabava com a morte, continuando no além-túmulo. Mas essa crença em uma vida após a morte não se relacionava com a desvinculação da alma em relação ao corpo, considerando-se que corpo e alma não consistiam uma dualidade, mas uma unidade. Acreditava-se que os mortos permaneciam vivos em seus próprios corpos em um mundo subterrâneo.
Hoje pensar assim parece absurdo. A civilização judaico-cristã ocidental está embasada na metempsicose, conceito que diz da separação da alma em relação ao corpo. Frequentemente se afirma que o corpo é uma embalagem que carrega a alma. Fala-se que a imperfeição da carne é a morada de algo sublime que quando da morte irá se desprender dessa estufa e alçar ao Paraíso ou descer ao Inferno. Claramente se percebe que essa dualidade corpo/alma alicerça a maior parte das crenças existentes, não persistindo na cultura atual a antiga concepção da unidade corpo/alma.

Ocorre que tanto a crença na dualidade corpo/alma quanto a devoção por uma vida que continua em um místico mundo subterrâneo, talvez inibam muitas possibilidades vivenciais. Não é segredo que a castração simbólica efetuada por algumas religiões quanto ao impulso sexual das pessoas, deixa cruéis marcas em seus corpos, por exemplo. Igualmente não é segredo que muitos daqueles que passam a vida temendo castigos divinos em templos e igrejas, são completamente mesquinhos, egoístas e intolerantes. Mas o problema não é esse. O problema é que quanto mais encobrimos a certeza da morte, seja com crenças, compras, rancores ou objetivos profissionais, mais sonegamos a grandiosidade e a beleza da vida.

Se houvesse a aceitação irrestrita do nosso fim, quem sabe poderíamos agir com respeito uns em relação aos outros. Quem sabe esqueceríamos ninharias e tantos desejos infundados que nos movem como sonâmbulos pelo planeta. Se aceitássemos nossa fragilidade e precariedade, talvez vivêssemos cada instante da existência instigados pelo amor, pela solidariedade e pela convivência harmônica. Se tanto as religiões quanto a atual onda consumista procuram furtar nossa visão quanto a um final irreversível, a aceitação do caráter último desse fim poderia injetar em nossas veias um senso completamente diverso do mundo, das pessoas e de nós próprios, pincelando a existência com a ciência do privilégio que é simplesmente estarmos vivos em um universo tão magnífico como o que habitamos.

Mas essa ética da fatalidade e da irreversibilidade da vida está longe de ser mais que um horizonte. O fato é que preferimos varrer para o canto mais escuro da consciência a perspectiva do nosso fim. O apego irrestrito à vida é confundido com preguiça para as coisas do mundo e visto como desinteresse pelas convenções tidas como normais.

Esquecemos de abraçar e beijar aqueles que amamos, não lembramos que de algum modo somos seres de uma mesma e antiquíssima família e passamos pela vida sem dar por conta do encanto que nos espreitou por toda parte.

Pensar na mortalidade não é algo agradável. Quando choramos em tantos velórios no caminhar da vida, choramos pela nossa condição finita além de derramarmos lágrimas por aqueles que amávamos e faleceram. Como diz Gabriel García Márquez, o luto é uma raiva cega e sem direção. Porém, a fatalidade da existência não precisa somente carregar a absurdidade da sua notável falta de sentido, mas pode trazer a possibilidade da construção de um novo significado existencial fincado na vida e nada mais, libertando-nos de amarras que mais atormentam que consolam, fazendo com que o corpo, antes de ser uma embalagem, uma imperfeição que carrega algo eterno, seja a única e verdadeira perfeição que de modo aleatório e desprovido de um planejador, de um arquiteto, deu-nos a possibilidade de trazermos na pele a poeira do Cosmo para o qual invariavelmente regressaremos após a morte – mas não como espíritos: apenas como átomos que um dia se transformarão em outros corpos (e talvez em farelo mínimo de outro sol que iluminará outras vidas).

Mas também é possível que nossa vida continue após a morte. Talvez em outra dimensão paralela a esta, continuemos observando esta vida a partir de outra vida da qual não temos a mínima noção. O mistério da existência não se encerra com a certeza do nosso fim. Mas a certeza do nosso fim encerra todo o mistério da existência. Não se trata de crueldade. Trata-se de fatalidade, de irreversibilidade e de inevitável limitação. Quem sabe Deus seja a beleza da incompreensão. Mas tudo não passa de especulação, já que as evidências apontam invariavelmente para a nossa solidão cósmica. Frente aos nossos anseios, medos e angústias, a única resposta aparente do Universo é o silêncio: o que nos une é a finitude, o que nos constrói é a morte.