Panelinhas

0
122

Não gosto de gente que tem a cabeça fechada. Geralmente são pessoas chatas, reacionárias e irritantes, portadoras daquele discurso politicamente correto que pretendeconservar alguma moral de cuecas que se mostra privada de qualquer legitimidade quando é questionada. Mas também devo esclarecer que não gosto de gente que tem a cabeça aberta em demasia. Parafraseando uma música do Tim Minchin, se você abrir demais sua cabeça, perderá seu cérebro – e é exatamente assim que acontece, por exemplo, com aquele conhecido seu que decide falar sobre espiritismo a partir da física quântica, algo que, reconheçamos, torra a paciência de qualquer um que prime por um pensamento minimamente racional.

Mas a realidade é que até suporto esses tipos, principalmente quando estou de bom humor. Claro que procuro evitá-los do mesmo modo que tento não ser atropelado quando atravesso a rua – mas confesso que consigo conviver com esse povo se mantiver uma distância respeitável e jamais entrar em determinadas temáticas em uma conversa. Não se tratade gostar ou não gostar do comportamento X ou Y, mas de reconhecer que quer você queira ou não, sempre haverão seres cujo desequilíbrio lógico é sua principal característica. Se todos pensassem de maneira idêntica, o mundo seria algo tão insosso quanto uma salada de chuchu: desde que não me encham o saco, portanto, deixo estar.

Mas relevando a existência de outros tantos e diversificados exemplares da fauna humana que me enchem de vergonha, existe um tipo de indivíduo que ultimamente tem me deixado muito, mas muito pê da vida. De quem falo? Daquele cara que gosta de formar seu clubinho e enxerga a vida a partir dele. Podem chamar esse fenômeno do que quiserem: panelinha, gueto, turma, tribo, grupo – mas a verdade é que quando você está próximo de alguém que faz parte de uma coalizão do tipo e ouve cochichos e olhares desconfiados que simplesmente não consegue interpretar, vez que certamente se trata de um código próprio para a comunicação daqueles cidadãos, sente vontade de socar o nariz do sujeito.

Esses clubinhos existem em toda parte: na escola, na faculdade, no trabalho, na política, nos negócios – e constituem, muitas vezes, condição de possibilidade para que você possa ingressar em alguma estrutura social. É aquela coisa: via de regra, santo de casa não faz milagre, mas se você fizer parte da tribo certa, daquela que detém uma maior rede de influências e conhece caras de todo canto que podem facilitar sua vida, você não apenas vira santo – dependendo do contexto, torna-se um milagreiro do primeiro escalão. Mas e aqueles que estão de fora da turma? Ora, simplesmente não interessam, pois em se tratando desse tipo de agremiação pouco importa caráter e talento, mas apenas habilidade e estômago para circular em determinados ambientes. 

Na política, nota-se isso de uma forma descarada. Alianças são feitas ao sabor dos favores e do oportunismo e desfeitas quando o cenário se modifica minimamente. No trabalho, também se vê isso de maneira clara: basta olhar para aquele grupo que faz fofocas sobre os colegas e procura, ridiculamente, prejudicar aqueles que não integram sua turma, jamais detendo a capacidade de enxergar sua própria pequenez. Na escola e na faculdade, você igualmente constata o que estou falando: lembra daqueles descolados com ares de superioridade que tiram sarro dos demais – mas colocam o rabinho entre as pernas quando precisam de algum favor? Pois é: o ser humano é podre.

Entendo que a formação desses guetos é normal – afinal, se não gosto de pessoas de cabeça excessivamente aberta ou toscamente fechada, tentarei não conviver com elas e desbravar o planeta na busca dos meus pares. Mas os problemas começam a surgir quando alguém, por não fazer parte da turma e não se adequar em determinados padrões definidos como tickets de entrada nesse universo paralelo, resta prejudicado em virtude disso. Acaso não é essa uma das razões pelas quais muitos talentos políticos acabam não dando seus ares ao público? Acaso não é essa uma das razões pelas quais muitos pedem demissão dos seus empregos ou mesmo acabam por serem mandados para a rua? Acaso não é essa uma das razões pelas quais muitos jovens, seja na escola ou na faculdade, sentem-se oprimidos e constroem uma casca que os separa do restante da humanidade?

O problema todo, enfim, decorre do fato de que algumas dessas panelinhas são dotadas de poder, conseguindo, em algumas ocasiões, impor sua vontade frente a coletividade. Se logo após as eleições do ano passado, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) afirmou que o Congresso eleito era o mais conservador desde 1964, essa constatação se confirmou na prática em 2015: projetos de lei ao estilo cortina de fumaça, acompanhados por discussões inócuas promovidas pela Bancada BBB (Bíblia, boi e bala), com a única intenção de desviar o foco da opinião pública e promover agrados a setores retrógrados da sociedade, foram a bola da vez do Parlamento no correr dos últimos meses. O que faremos diante disso? Não sei. O que tenho certeza, contudo, é quequando os clubinhos querem, convenhamos, não são nada menos que fascistas.